Samuel Milani quebra recorde de distância de Alagoas de parapente com voo de 380,4 km

14 de setembro de 2026 - Por Lucas Axelrud

O piloto mineiro decolou da rampa de Tanque d’Arca no dia 13 de setembro e permaneceu cerca de nove horas no ar. O voo registrou 380,4 km em linha reta e 390 km pelo OLC, reforçando o potencial da região para grandes voos de cross-country.

O dia 13 de setembro de 2026 entrou para a história do voo livre alagoano. Samuel Milani decolou da rampa de Tanque d’Arca com um objetivo claro: aproveitar todo o dia e buscar uma grande distância. Cerca de nove horas depois, encerrou o voo com 380,4 km em linha reta e 390 km registrados pelo OLC, estabelecendo um novo recorde de distância de Alagoas.

Mais do que uma tentativa que cresceu ao longo do caminho, o voo nasceu com a intenção de durar. Samuel já havia analisado a previsão e sabia que precisaria de paciência, principalmente nas primeiras horas.

A intenção era realmente fazer um voo longo e pousar ao fim do dia”, conta o piloto.

A estratégia fazia sentido diante de uma condição que exigiria concentração. Havia nuvens apenas na região da rampa. Depois disso, o cenário previsto era predominantemente de céu azul, sem as referências visuais das nuvens para indicar as térmicas.

Era a previsão mesmo, então já fui com o pensamento de manter a paciência e a concentração, mais pela manhã, se quisesse voar até o fim do dia”, explica.

Os primeiros 30 km e o desafio de sobreviver no azul

Se a meta era permanecer no ar durante todo o dia, o primeiro grande teste veio praticamente logo após a decolagem.

Samuel aponta os 30 quilômetros iniciais como o trecho mais delicado do voo. Além do céu azul, essa primeira parte da rota acontece em terreno mais plano, exigindo paciência para encontrar as ascendentes e seguir avançando.

Foi no início do voo para sobreviver no azul, no flat nos 30 primeiros quilômetros”, relembra.

Superado esse trecho, o desafio mudou. A partir dali, não era apenas uma questão de encontrar térmicas, mas também de escolher bem por onde seguir.

Em alguns pontos, Samuel encontrou extensas áreas de jurema, vegetação característica da região, sem opções de pouso visíveis. Para manter margens adequadas ao longo do voo, foi necessário abandonar a linha mais direta e realizar desvios.

Havia juremais sem pouso até onde eu podia enxergar. Então precisei desviar.”

A leitura da rota passou, portanto, a fazer parte importante da construção dos 380,4 km.

O momento em que o dia mudou

Samuel já havia decolado esperando um voo longo, mas uma mudança importante na condição, depois das 13h, mostrou que havia espaço para avançar ainda mais.

Até então, o teto estava próximo dos 1.600 metros. De forma repentina, subiu para aproximadamente 2.400 metros.

Depois das 13h o teto subiu, repentinamente, de 1.600 metros para 2.400 metros. Depois disso, mesmo no azul, eu percebi que poderia pousar no fim do dia.”

Era justamente esse o cenário que ele buscava: aproveitar as horas disponíveis e permanecer voando até o final da tarde.

Para Samuel, longos períodos no ar não são algo fora da rotina. Pelo contrário, representam a maneira como ele mais gosta de viver o voo livre.

Foi tranquilo. Eu já estou acostumado com esses voos mais longos. Na verdade, é o que eu mais gosto no voo livre: pousar com o pôr do sol.”

Tanque d’Arca mostra potencial para grandes distâncias

O voo também coloca em evidência uma rampa ainda pouco explorada para cross-country de grande distância em Alagoas.

A decolagem de Tanque d’Arca é completamente natural e fica em uma propriedade particular com acesso liberado aos pilotos. A estrutura é simples: veículos convencionais conseguem subir aproximadamente metade do caminho. Com um veículo 4x4, é possível chegar próximo à área de decolagem, completando o trecho restante a pé.

Apesar da simplicidade da estrutura, Samuel vê características bastante interessantes para quem busca distância.

A localização é um dos principais diferenciais. A rampa fica na transição para a região mais árida do estado e, segundo o piloto, a combinação de vento e posicionamento geográfico permite começar o voo cedo, um fator importante quando a proposta é permanecer muitas horas no ar.

Ainda assim, o local permanece relativamente pouco explorado para esse tipo de voo.

Tem poucos voadores locais de cross-country”, explica Samuel.

A rota também apresenta características diferentes de acordo com a direção escolhida. Segundo ele, seguindo para sudeste, o resgate é extremamente simples. Na direção nordeste, a logística se torna mais técnica, com maior presença de estradas de chão.

São características que ajudam a dimensionar não apenas a distância alcançada, mas também o potencial que a região ainda oferece para novos voos.

Uma história construída desde 2011

Para Samuel, os números não são o único aspecto importante do voo.

O piloto destaca que a marca também representa o resultado de um trabalho desenvolvido ao longo dos anos pelo Clube Alagoas de Voo Livre, especialmente por meio da atuação de Emerson Miranda.

Para o voo livre de Alagoas isso é resultado de um trabalho que vem sendo feito pelo Clube Alagoas de Voo Livre, Emerson Miranda, desde 2011”, afirma.

A participação de Emerson foi fundamental também nos bastidores desse voo.

Samuel entrou em contato apenas três dias antes da tentativa. A partir dali, recebeu suporte para transformar o planejamento em realidade, incluindo estadia na noite anterior e o resgate depois do voo.

Sem o apoio do Emerson Miranda, esse voo não teria acontecido. Eu apenas entrei em contato três dias antes e ele me ofereceu toda a estrutura. Fez resgate, estadia no dia antes do voo para sairmos cedinho. Só tenho a agradecer.”

O relato reforça um elemento recorrente nos grandes voos de cross-country: por trás das horas no ar, há também planejamento, logística e uma comunidade trabalhando em solo.

Cross-country desde o começo

Samuel voa desde 2015 e diz que o cross-country nunca foi uma especialização que apareceu posteriormente em sua trajetória. Era o objetivo desde o início.

Sempre me dediquei ao cross-country. Já comecei no voo pensando nisso.”

E os 380,4 km de Tanque d’Arca estão longe de representar sua maior distância pessoal. Antes desse voo, Samuel já havia alcançado 513 km no sertão, sendo também o detentor do recorde mineiro anterior ao atual.

Por isso, a conquista em Alagoas ganha outro significado. Não é apenas a busca por superar a própria melhor marca, mas a exploração de uma região diferente e a construção de novas possibilidades para o voo de distância no estado.

Sobre o próximo objetivo, ele prefere não estabelecer um número específico.

A ideia é fazer sempre mais. Mas o mais importante é curtir o voo!

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