Por Dentro das Competições

Como chegamos às mudanças para um novo ciclo do Campeonato Brasileiro

17 de agosto de 2026 - Por Fernando Brandalize (Zoio)

CBP 2027

Como chegamos às mudanças para um novo ciclo do Campeonato Brasileiro

Uma revisão construída a partir da experiência de campo, da escuta de organizadores e pilotos e da reorganização dos processos da CBVL.

Um sistema construído ao longo dos anos

O Campeonato Brasileiro de Parapente vem sendo construído há muitos anos e, ao longo desse período, naturalmente passou por ajustes, correções e melhorias. Muitas dessas mudanças nasceram da própria experiência de cada edição: um problema identificado em uma etapa gerava uma solução para a próxima, uma nova necessidade criava um procedimento e conversas entre pilotos, organizadores, equipes técnicas e CBVL produziam novas ideias.

Esse processo trouxe o Campeonato até aqui e acumulou uma enorme bagagem de experiência. Mas também criou, em alguns pontos, um sistema que foi sendo adaptado conforme as situações apareciam.

Com minha entrada na Diretoria Executiva de Competições, uma das propostas do trabalho foi justamente olhar para esses processos de forma mais ampla. Isso também está conectado com uma direção que a atual gestão da CBVL vem buscando: aproximar mais a Confederação de quem está diretamente envolvido com o esporte.

Pilotos, organizadores, clubes, federações e equipes técnicas vivem o Campeonato de perspectivas diferentes. Se queremos melhorar o sistema, precisamos entender essas diferentes perspectivas. Por isso, antes de começar a mudar documentos, decidimos ouvir.

Transformar conversas em informação

Quem trabalha há muitos anos em competições sabe que boa parte das melhores informações aparece no próprio campo: numa conversa na rampa, numa dificuldade durante o credenciamento, num problema de transporte, numa situação no goal ou numa ideia surgida durante uma premiação.

O problema é que muitas dessas informações ficam naquele momento. O evento termina, a equipe muda, outra cidade assume a organização e parte daquela experiência não vira conhecimento institucional.

Para começar a mudar isso, criamos uma avaliação destinada a organizadores e lideranças envolvidas com eventos de voo livre. O formulário foi encaminhado também aos presidentes das federações, buscando reunir experiências de eventos nacionais, estaduais, regionais e locais.

A ideia não era simplesmente perguntar se o sistema era bom ou ruim. Queríamos entender onde estavam as dificuldades práticas, quais exigências eram difíceis de interpretar, onde existia sobreposição de informações e que tipo de ferramenta ou suporte poderia facilitar a organização.

Entre as contribuições apareceram pedidos por critérios mais claros, melhor definição de responsabilidades, maior objetividade nas questões de segurança, formulários organizados, checklists, cronogramas, modelos prontos e uma separação mais clara entre Edital, Manual do Organizador e Regulamento do Campeonato.

Era exatamente o que buscávamos: não apenas saber o que precisava melhorar, mas entender como transformar essa melhoria em ferramenta de trabalho.

Primeiro, organizar os próprios documentos

Ao colocar essas informações lado a lado e revisar os documentos utilizados até então, percebemos uma questão importante: Edital, Manual do Organizador e Regulamento possuíam, em alguns momentos, informações que se cruzavam, se repetiam ou não estavam claramente separadas pela função de cada documento.

Antes de acrescentar novas exigências, decidimos organizar a própria estrutura documental.

O Edital passa a tratar do processo de candidatura e escolha da sede: formato, condições, cronograma, critérios, documentação e compromissos assumidos por quem pretende realizar o Campeonato.

O Manual do Organizador estabelece o padrão técnico e operacional para que o evento seja realizado. E o Regulamento do Campeonato trata das regras esportivas, da condução técnica das provas e daquilo que se aplica aos pilotos.

Essa separação é fundamental porque o organizador constrói sua proposta muitos meses antes da competição. Ele precisa saber naquele momento quais compromissos está assumindo e qual estrutura deverá entregar. Uma obrigação da organização não pode depender de uma regra esportiva que será atualizada posteriormente.

Em resumo: o Edital define o que está sendo contratado e selecionado; o Manual organiza como a estrutura deverá funcionar; e o Regulamento estabelece as regras esportivas da competição.

Um Manual para ser usado, não apenas lido

Talvez uma das maiores mudanças esteja no novo Manual do Organizador. Nossa intenção foi transformá-lo em uma ferramenta de operação.

Em vez de concentrar tudo em um grande texto, passamos a dividir a informação de acordo com sua finalidade. O Manual estabelece as obrigações gerais; os Anexos mostram estruturas, materiais e recursos; os Protocolos orientam a operação; e Modelos, Planos e checklists ajudam a registrar e conferir aquilo que precisa estar preparado.

Na prática, uma pessoa responsável pelo QG pode consultar diretamente o que precisa para o QG. Quem estiver responsável pelo Goal terá documentos específicos para estrutura e operação. O mesmo acontece com decolagem, transporte, resgate, credenciamento, briefing, segurança e cerimônias.

O novo Manual reúne 15 documentos complementares entre anexos, protocolos, modelos e planos e inclui um cronograma de obrigações e entregas para acompanhamento entre CBVL e Organizador.

Isso não significa ensinar ao organizador como administrar sua empresa ou contratar seus fornecedores. Cada organização possui sua realidade. A função da CBVL é deixar claro qual padrão precisa ser entregue; a forma de viabilizá-lo continua sendo responsabilidade de quem organiza.

Depois de ouvir quem organiza, ouvir quem compete

A segunda parte do processo foi olhar para quem está do outro lado do evento: o piloto.

Criamos uma avaliação específica para pilotos que competem ou já competiram no Campeonato Brasileiro de Parapente. O objetivo não era avaliar regras esportivas, mas entender a experiência com comunicação, credenciamento, QG, rampa, transporte, resgate, segurança, briefings, goals, resultados, cerimônias e atendimento.

A leitura geral foi positiva, mostrando que há uma base que funciona e deve ser preservada. Ao mesmo tempo, algumas áreas apareceram com mais espaço para evolução, especialmente goals e pousos oficiais, organização do acesso à decolagem, padronização de determinadas estruturas e apresentação das cerimônias e premiações.

Nas respostas abertas surgiram observações sobre necessidade de mais organização do staff, melhor separação das áreas, estrutura de apoio no goal, responsáveis definidos e utilização de checklists. Também apareceu a importância de uma apresentação mais organizada e visualmente adequada nas cerimônias.

Isso não é apenas estética. Uma competição precisa pensar em mídia, patrocinadores, público e na valorização do próprio título. Uma área de goal bem apresentada, uma cerimônia organizada e uma boa fotografia de pódio também fazem parte da imagem que o Campeonato Brasileiro projeta.

Boa parte dessas observações já foi incorporada ao novo Manual. Esse é justamente o objetivo de registrar feedback: fazer com que ele possa virar processo.

Qual deve ser a missão do Campeonato Brasileiro?

Depois de olhar para a estrutura, precisávamos fazer uma pergunta maior: o que queremos que o Campeonato Brasileiro de Parapente seja?

Na nossa visão, o CBP precisa reunir os melhores atletas brasileiros em uma competição de alto nível, definir o Campeão Brasileiro e, ao mesmo tempo, criar um ambiente esportivo capaz de elevar o nível técnico dos nossos pilotos para as principais competições internacionais.

Ao analisar o formato utilizado nos últimos anos, percebemos alguns desafios. Com duas etapas, em determinadas temporadas alguns pilotos participavam da primeira, tinham um resultado abaixo do esperado e acabavam perdendo o interesse pela segunda. Isso podia enfraquecer a etapa seguinte, afetar o organizador e diminuir a concentração dos melhores pilotos no mesmo evento.

Ao mesmo tempo, o calendário do voo livre está crescendo. Outras modalidades e novos eventos surgem, e os pilotos passam a dividir seu calendário entre mais opções. Precisávamos considerar essa realidade.

Etapa única: uma decisão construída por vários fatores

A própria avaliação dos pilotos perguntou qual deveria ser o formato futuro do CBP. O resultado mostrou uma divisão muito próxima entre a preferência por etapa única e a manutenção de duas etapas, além de pilotos sem opinião formada.

Isso é importante porque mostra que a decisão pela etapa única não nasceu simplesmente de uma enquete. A consulta serviu para entender o pensamento dos pilotos, mas a decisão institucional também precisou considerar experiência operacional, calendário, adesão observada nos últimos campeonatos, capacidade dos organizadores e a estratégia esportiva que queremos para o CBP.

Depois dessa avaliação conjunta, a CBVL optou pelo formato de etapa única para 2027: 1 dia de treino livre, na sexta-feira, seguido por 8 dias consecutivos de prova, de sábado a sábado, totalizando 9 dias de programação oficial e sem dia de descanso.

A expectativa é concentrar os melhores pilotos em um único grande encontro nacional, aumentar a relevância esportiva do Campeonato e criar um evento mais forte também para pilotos estrangeiros, mídia, patrocinadores e organizadores.

Mais do que produzir um ranking, queremos fortalecer o valor de ser Campeão Brasileiro.

Um novo processo para quem organiza

A revisão também alcançou o processo de candidatura das sedes. As propostas passam a ser apresentadas por um formulário oficial padronizado, com campos definidos e documentos anexados diretamente ao processo.

Além de facilitar a comparação entre propostas, isso cria uma etapa mais clara de habilitação: primeiro é verificado se a candidatura atende às condições mínimas do Edital e do Manual; somente depois ela segue para avaliação.

A participação dos pilotos também passa a fazer parte formal do processo de escolha da sede, conectando a visão de quem compete às avaliações técnica e institucional da CBVL.

Os detalhes de prazos, critérios, condições financeiras e votação estão no Edital 2027 e serão apresentados na comunicação oficial de abertura do processo. Aqui, o ponto principal é a mudança de lógica: tornar a candidatura mais organizada, comparável e previsível desde o início.

Padronizar não significa engessar

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes de todo esse trabalho.

Criar padrões não significa tornar todos os Campeonatos iguais. Cada cidade possui uma realidade, cada rampa tem características diferentes e cada região possui sua logística, seus parceiros, sua estrutura pública e suas limitações.

O objetivo não é dizer exatamente como cada organizador deverá gerir o seu evento. É garantir que, independentemente da sede escolhida, exista um nível mínimo de estrutura, segurança, organização e apresentação compatível com aquilo que esperamos de um Campeonato Brasileiro.

Dentro desse padrão, continua existindo espaço para cada sede construir sua própria identidade. Na verdade, quanto mais claras forem as obrigações mínimas, menor a chance de o organizador descobrir exigências no meio do caminho.

Este não é um processo encerrado

O Manual que estamos apresentando agora é a versão V1 / 08 / 2026, e isso é intencional. Ele não foi construído para ser um documento definitivo. Foi construído para ser utilizado.

Quando começar a ser aplicado, novos aprendizados surgirão. Organizadores encontrarão situações não previstas, pilotos trarão novas percepções e equipes técnicas identificarão pontos que podem ser ajustados. Essas informações precisam voltar para o sistema.

Uma instituição não melhora apenas criando regras. Ela melhora quando consegue ouvir, registrar, transformar informação em processo, aplicar, avaliar novamente e evoluir.

Ainda existem outros documentos e processos que serão trabalhados nas próximas etapas, incluindo a atualização do Regulamento do Campeonato para 2027. Mas o novo Edital e o Manual do Organizador representam o primeiro grande passo dessa reorganização.

O CBP possui uma história construída por muitos pilotos, organizadores, equipes técnicas, clubes, federações e pessoas que dedicaram anos ao desenvolvimento da competição. Nosso trabalho agora é utilizar toda essa experiência para construir o próximo ciclo.

Não mudar simplesmente porque é novo, mas organizar melhor aquilo que aprendemos ao longo do caminho, corrigir o que precisa ser corrigido e criar uma estrutura capaz de continuar evoluindo.

O objetivo final continua simples: um Campeonato Brasileiro mais forte para quem organiza, melhor para quem compete e cada vez mais capaz de elevar o nível do voo livre brasileiro.

Fernando “Zoio” Brandalize
Diretor Executivo de Competições – CBVL

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