Copa Cearense 2026
Três etapas, novas regiões em evidência e mais um passo no fortalecimento do Nordeste competitivo
Temporada Verde no Nordeste
Durante muitos anos, o Nordeste brasileiro ficou conhecido no voo livre mundial pela temporada seca, pelos grandes voos de distância e pelas quebras de recordes que colocaram regiões como Quixadá e Patu entre os principais nomes do Cross Country no Brasil e no mundo.
Essa história segue sendo uma das marcas mais fortes do voo livre nacional. Mas, nos últimos anos, um novo movimento começou a ganhar força: a valorização da chamada temporada verde.
Fora da época clássica dos recordes, o sertão se transforma. As paisagens ganham novos tons, os ventos tendem a ser mais suaves, as térmicas ficam menos agressivas e a experiência de voo passa a oferecer outro tipo de aprendizado aos pilotos.
Mais do que buscar grandes marcas, esse período tem mostrado um Nordeste diferente: mais acessível para pilotos em evolução, rico em experiências culturais e com grande potencial para o desenvolvimento técnico.
É nesse cenário que eventos como o Quixadá Verde e o Patu Verde vêm ajudando a ampliar a visão sobre o voo no sertão.
Para entender melhor esse movimento, conversamos com Eurismar Junior, instrutor de voo livre CBVL e certificador XC, sobre o Quixadá Verde, e com Diego Dantas, sobre a proposta do Patu Verde.
O Quixadá Verde chega à sua 9ª edição consolidado como um dos eventos que ajudaram a abrir caminho para esse novo olhar sobre o Nordeste.
Segundo Eurismar Junior, o evento evoluiu muito desde o início.
“Estamos na 9ª edição do evento. Na primeira edição, tínhamos pouco mais de 30 pilotos; já na última edição, em 2025, tivemos que encerrar as inscrições com 100 pilotos para conseguir atender a todos com o máximo de qualidade e segurança.”
A ideia inicial nasceu da vontade de mostrar que Quixadá não deveria ser visto apenas como um lugar de voo forte, reservado aos grandes pilotos de distância.
“Quixadá, assim como boa parte do sertão, dá voo o ano inteiro. Era muito triste ver todo esse potencial sendo desperdiçado só porque as pessoas julgavam que ‘aqui tudo é muito forte’ ou que o lugar era exclusivo para superpilotos. Nós queríamos desmistificar isso.”
Hoje, o evento se tornou uma porta de entrada para pilotos que desejam conhecer o sertão, evoluir no Cross Country e ganhar experiência antes de encarar condições mais fortes.
A estrutura é pensada especialmente para quem está iniciando no XC ou voando no sertão pela primeira vez, com suporte técnico, acompanhamento próximo e apoio de órgãos como Ciopaer, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e Prefeitura de Quixadá, em parceria com a Quixadá Aventura.
Na temporada verde, as condições costumam ser mais suaves, criando uma experiência diferente da temporada seca.
“Nessa época, os ventos e as térmicas são mais suaves. Dá para viver a experiência do sertão voando em uma condição muito parecida com a do Sul e Sudeste do Brasil. Mas isso não significa voo curto: a janela de voo é excelente e vai das 9h da manhã até as 17h.”
Imagem de Quixadá durante a temporada verde: paisagens renovadas, voo em grupo e o contraste do sertão verde com os monólitos da região.
Fotos: Quixadá Verde / Quixadá Aventura

Apesar da proposta mais acessível e técnica, o Quixadá Verde também mostra grande potencial de distância. As provas são de Cross Country livre, somando as distâncias dos três melhores voos de cada piloto. O evento já registrou muitos voos acima de 100 km e, em 2025, teve seu recorde quebrado com uma marca expressiva de 289 km.
Além do voo, a experiência também passa pela cultura local, com trilhas ecológicas, área de lazer, festa junina, comidas típicas e a hospitalidade do povo nordestino.
“O povo do sertão é muito receptivo o ano todo, mas na época da fartura da colheita e dos festejos juninos, tudo vira motivo de celebração — imagina então como eles recebem um visitante que vem do céu!”
Assim como Quixadá, Patu também ocupa um lugar especial na história do voo livre brasileiro. A rampa potiguar é uma das mais conhecidas do país e faz parte da memória das grandes quebras de recorde no Nordeste.
Agora, com o Patu Verde, a região começa a apresentar uma nova proposta: mostrar que Patu também tem muito a oferecer fora da temporada clássica dos grandes voos de distância.
Segundo Diego Dantas, a expectativa para a primeira edição é de integração, descoberta e valorização da paisagem renovada do sertão.
“A expectativa é de integração máxima. Queremos mostrar aos pilotos que Patu não ‘fecha’ quando as chuvas chegam. A meta é reunir uma turma animada, não apenas para buscar recordes, mas para desfrutar da atmosfera de confraternização, da hospitalidade do sertão e da beleza única da paisagem renovada.”
A proposta principal do evento é desmistificar o voo no Nordeste e mostrar que a temporada verde também oferece condições interessantes para evolução técnica.
“Queremos provar que o período de transição e a temporada verde oferecem condições técnicas desafiadoras e muito prazerosas. A proposta foca no voo recreativo de alta qualidade, na segurança e no fortalecimento da nossa comunidade local.”
A intenção da organização é transformar o Patu Verde em um evento fixo no calendário, fortalecendo o turismo regional e oferecendo aos pilotos uma nova forma de viver uma das rampas mais icônicas do Brasil.
Durante a temporada verde, Patu ganha uma característica visual e técnica diferente.
“É um espetáculo à parte. O verde intenso do sertão proporciona uma experiência estética indescritível. É um momento de contemplação, onde o voo se torna mais suave, ideal para evolução técnica sem a pressão das condições super fortes dos meses de seca.”

Imagens de Patu durante a temporada verde: pilotos em voo, paisagem renovada e a identidade da cidade como Terra do Voo Livre.
Para Diego, esse período também oferece um excelente exercício de leitura das paisagens já conhecidas, exigindo mais estratégia dos pilotos e criando um ambiente interessante para navegação precisa.
“Os pilotos encontrarão um Nordeste diferente do que se vê nos manuais de recordes. Encontrarão rampas bem cuidadas, resgate ágil e o acolhimento do povo potiguar. É voo com conforto, qualidade e sem as aglomerações típicas do auge da temporada.”
O crescimento de eventos como Quixadá Verde e Patu Verde mostra uma mudança importante na forma como o voo livre brasileiro enxerga o Nordeste.
Durante muito tempo, a região foi associada quase exclusivamente aos grandes voos da temporada seca. Essa imagem construiu uma história poderosa, mas também criou uma barreira para muitos pilotos que acreditavam não ter nível técnico suficiente para voar no sertão.
Hoje, essa percepção começa a mudar.
“Antigamente, eu via mensagens nos grupos do tipo: ‘Você vai voar no Nordeste? Isso é coisa de louco, você não tem nível para isso...’ Hoje, o cenário mudou e os pilotos que já vieram incentivam os amigos a virem”, afirma Eurismar Junior.
Esse crescimento também se conecta com outros movimentos regionais, como as etapas da Copa Cearense, organizadas pela FEPACE, que vêm fortalecendo o calendário estadual e ampliando as oportunidades de competição no Nordeste.
Ao ampliar o calendário para além da temporada seca, clubes, federações, organizadores e pilotos passam a ter mais oportunidades ao longo do ano. Isso fortalece rampas, movimenta o turismo local, cria novas experiências competitivas e ajuda a formar pilotos mais completos.
A temporada verde no Nordeste não substitui a temporada clássica dos grandes recordes. Ela amplia a visão sobre a região.
É outro momento. Outro tipo de voo. Outra experiência.
É a oportunidade de conhecer o sertão com novas cores, voar em condições mais suaves, evoluir tecnicamente, participar de eventos acolhedores e viver de perto a cultura nordestina.
Para muitos pilotos, pode ser o primeiro passo antes de encarar a temporada mais forte. Para outros, pode ser simplesmente uma das experiências mais bonitas e completas dentro do voo livre brasileiro.
“O Quixadá Verde não é só uma competição, é uma grande troca de conhecimento entre pilotos experientes e iniciantes. A evolução de quem participa é nítida ano após ano, e as amizades que criamos ficam para a vida inteira.”
E Diego Dantas reforça esse mesmo espírito ao apresentar o Patu Verde como uma experiência de imersão no sertão.
“Aqui, você não vai apenas voar; vai viver uma experiência de imersão no sertão. Estamos de braços abertos!”
Esse talvez seja o maior valor desse movimento: mostrar que o Nordeste brasileiro não é apenas terra de recordes.
É também terra de aprendizado, acolhimento, cultura, paisagens únicas e novas possibilidades para o futuro do voo livre nacional.
Fernando “Zoio” Brandalize
Diretor Executivo de Competições – CBVL