Transcapixaba Hike and Fly 2026 inicia travessia inédita de 600 km pelo Espírito Santo
Replay em 3D: tecnologia brasileira ajudando pilotos a entender melhor suas provas
Ferramenta desenvolvida por Sergio Sampaio, o “Serginho”, permite rever competições em ambiente 3D e analisar decisões de voo com mais clareza
O voo livre brasileiro sempre teve uma grande capacidade de adaptação, criatividade e desenvolvimento próprio. Em diferentes fases do esporte, pilotos, organizadores e desenvolvedores criaram soluções para melhorar a forma como voamos, competimos, acompanhamos provas e entendemos o nosso próprio desempenho.
Dentro das competições, esse movimento tecnológico vem se tornando cada vez mais importante. Hoje, analisar dados, rever decisões, acompanhar pilotos em tempo real e transformar uma prova em uma experiência mais compreensível são caminhos naturais para a evolução do esporte.
E o Brasil também tem mostrado capacidade de criar suas próprias ferramentas.
Um exemplo disso é o sistema de replay em 3D desenvolvido por Sergio Sampaio, o “Serginho”, piloto de competição de Race que uniu sua experiência no voo livre com o desenvolvimento de uma plataforma capaz de recriar provas em ambiente tridimensional, permitindo que pilotos analisem seus voos com muito mais profundidade.
Para entender melhor essa ferramenta, conversamos com Serginho sobre sua história, a origem do projeto, os desafios técnicos e o potencial do replay para pilotos, organizadores, mídia e público.
A relação de Sérginho com o voo livre começou cedo, em Poços de Caldas, uma cidade com forte tradição no esporte.
“Cara, faz muito tempo, hein! Comecei a voar bem cedo aqui em Poços. Acho que eu tinha uns 16 anos.”
Na época, Poços já contava com pilotos de destaque nas competições de Race, como Cristiano Vermelho, Rafael Preguiça e Gilmarzinho. Além disso, Renatinho Lopes já era uma referência no Acro.
Com esse ambiente ao redor, o caminho para a competição aconteceu quase naturalmente.
“Foi inevitável querer seguir os passos deles e começar a competir também.”
O gosto pelas provas veio especialmente em um Campeonato Brasileiro de Parapente realizado em Poços de Caldas, onde Serginho venceu na categoria Revelação. Depois vieram as etapas do Sul Mineiro, as amizades construídas dentro do esporte e a experiência acumulada ao longo dos anos.
Essa vivência como piloto foi fundamental para que, mais tarde, ele começasse a enxergar também as necessidades tecnológicas das competições.
A ideia do replay nasceu de uma pergunta simples:
“Como seria assistir a uma prova de parapente pela visão do piloto?”
Segundo Serginho, já existem boas ferramentas para análise de voos e acompanhamento ao vivo, mas ainda faltava uma experiência mais imersiva.
“Hoje a gente tem ferramentas excelentes para analisar voos e acompanhar provas ao vivo, mas nenhuma passa a sensação de realmente estar imerso na prova.”
O objetivo era criar algo que permitisse sentir a dinâmica da competição de forma mais próxima da realidade: acompanhar as decisões do piloto, a aproximação do relevo, a corrida até o goal e a relação com os demais competidores.
“Eu queria criar algo que fizesse você sentir que está voando junto, vendo as decisões do piloto, a aproximação do relevo, a corrida até o goal… como se fosse um jogo em primeira pessoa.”
Na versão atual, o aplicativo funciona tanto como uma ferramenta de análise pós-voo quanto como uma plataforma de live tracking.
“O aplicativo recria a prova em um ambiente 3D, permitindo acompanhar o voo de um piloto em relação aos demais competidores, quase como se você estivesse voando junto com ele.”
Essa é uma das principais diferenças em relação às ferramentas tradicionais. Em vez de observar apenas pontos se movendo em um mapa 2D, o piloto consegue visualizar a prova com relevo, altitude, posicionamento dos grupos e dinâmica espacial.
“Isso torna muito mais fácil entender a dinâmica da prova do que apenas olhar para um mapa 2D com pontos se movendo.”
No replay, o piloto consegue acompanhar praticamente tudo o que aconteceu durante o voo. A ferramenta mostra dados de cockpit, como velocidade, altitude, vario, planeio atual, planeio necessário para alcançar o goal, distância restante e outras informações de navegação.
Um dos detalhes que chama atenção é a possibilidade de ouvir o vário do piloto selecionado.
“Inclusive, é possível ouvir o vário do piloto selecionado, o que deixa a experiência muito mais próxima de um voo real.”
Além da visão 3D, o sistema também mantém um mapa 2D com a posição de todos os competidores. Isso permite observar a estratégia dos pelotões, as linhas escolhidas e as decisões tomadas durante a prova.
.jpeg)
Para Serginho, o grande diferencial do sistema está justamente na leitura espacial que a ferramenta proporciona.
“Nas ferramentas tradicionais, olhando apenas um mapa de cima, muitas vezes parece que um piloto está em vantagem, quando na realidade ele está muito mais baixo ou em uma posição desfavorável em relação ao grupo.”
Essa diferença muda completamente a interpretação da prova. Um piloto pode parecer bem posicionado no mapa, mas estar baixo, fora da melhor linha ou em uma condição menos favorável. Ao mesmo tempo, outro piloto pode parecer mais afastado, mas estar com mais altura, melhor energia ou em uma posição estratégica.
“A visão espacial muda completamente essa percepção e torna muito mais fácil entender por que um piloto acertou ou errou uma decisão durante a prova.”
O principal benefício do replay, segundo Serginho, é permitir que o piloto entenda por que uma decisão deu certo ou errado.
Durante uma prova, as decisões são rápidas. O piloto está focado no grupo, na próxima térmica, no relevo, no próximo pilão ou na corrida final. Muitas vezes, não há tempo para compreender tudo o que está acontecendo ao redor.
“Durante a prova, estamos muito focados em acompanhar o grupo ou tomar decisões rápidas. Depois, assistindo ao replay, conseguimos analisar tudo com calma e perceber oportunidades ou erros que passaram despercebidos naquele momento.”
Essa análise pós-prova transforma o resultado em aprendizado. Mais do que saber quem chegou antes, o piloto consegue entender como cada decisão influenciou o desempenho.
O replay também permite comparar o próprio voo com o de outros competidores.
“Muitas vezes, quando um piloto faz uma escolha diferente da sua e termina a prova melhor posicionado, entender o motivo daquela decisão vale muito mais do que simplesmente olhar o resultado final.”
Essa comparação é uma das partes mais ricas do processo de evolução técnica. O piloto consegue ver onde perdeu tempo, onde poderia ter seguido outro grupo, onde poderia ter mantido mais altura ou onde uma decisão diferente mudou o resultado da prova.
Serginho acredita que muitos pilotos brasileiros ainda analisam pouco os próprios voos depois das competições.
“Hoje são poucos os pilotos que realmente param para analisar o próprio voo depois de uma competição.”
Quando essa análise acontece, normalmente é feita em ferramentas 2D, que nem sempre mostram tudo o que realmente aconteceu no ar.
Outro ponto importante é que, durante a prova, o piloto cria uma percepção limitada do próprio voo. Ele está concentrado no seu grupo, na térmica ou no piloto da frente. Depois, ao rever a prova, percebe que a situação era diferente daquilo que imaginava.
“Durante a prova, a gente acaba criando uma visão meio ilusória do próprio voo. Estamos tão focados no nosso grupo, na térmica ou no piloto da frente, que muitas vezes perdemos a noção do que está acontecendo ao redor.”
Nesse sentido, o replay pode ajudar a criar uma cultura mais forte de estudo pós-prova.
Um dos pontos que facilita esse processo é a simplicidade de acesso. O sistema já importa automaticamente grande parte das competições importantes para sua base de dados. Assim, o piloto não precisa baixar tracklogs, importar arquivos ou configurar manualmente a prova.
“O piloto só precisa entrar no site, escolher a prova e apertar play.”
Para Serginho, quanto menor a barreira para analisar um voo, maior a chance de esse hábito fazer parte da rotina dos pilotos.
.jpeg)
Os arquivos de voo carregam uma grande quantidade de informações, mas um dos grandes desafios foi entender o que realmente precisava ser mostrado na tela.
“Os arquivos de voo trazem muitas informações, mas isso não significa que elas devam aparecer todas na tela.”
Para ele, o maior desafio não foi apenas técnico, mas também de usabilidade: selecionar os dados mais importantes e apresentá-los de forma intuitiva, sem poluir a interface.
Esse desafio fica ainda maior porque boa parte dos acessos acontece pelo celular.
“Hoje a maior parte dos acessos acontece pelo celular. Então você tem pouco espaço para mostrar muita informação.”
Encontrar esse equilíbrio entre simplicidade e riqueza de dados tem sido uma das principais frentes de evolução do projeto.
Serginho também destaca que o feedback dos pilotos foi essencial desde o início.
“Desde a primeira versão, recebi bastante feedback e fui ajustando a interface com base no uso real. O aplicativo evoluiu bastante desde o lançamento e continua evoluindo a cada nova versão.”
Os dados usados no replay vêm dos arquivos de voo, os IGCs, disponibilizados pelos organizadores das competições.
O aplicativo possui uma rotina automatizada que identifica uma nova prova, faz o download dos arquivos e prepara todo o ambiente para o replay.
Depois disso, o sistema valida os voos, monta o cenário em 3D, gera o relevo da região, processa os waypoints da tarefa e organiza as informações necessárias para reconstruir a prova.
“Depois que esse processamento termina, praticamente tudo o que aparece no aplicativo é extraído dos próprios arquivos de voo.”
Esses arquivos registram posição, altitude, velocidade e outras informações ao longo do tempo. Com isso, o sistema consegue reconstruir a prova com alto nível de fidelidade.
Além disso, a ferramenta mantém uma base de dados sincronizada com a CIVL, atualizando informações como foto, nacionalidade e rankings dos pilotos conforme os dados cadastrados.
O replay também pode ir além da análise dos pilotos.
Para Serginho, a visualização em 3D tem grande potencial para organizadores, mídia, transmissões e público em geral.
O live tracking em 2D já cumpre bem a função de mostrar onde os pilotos estão, mas para quem não voa, a experiência pode ser pouco envolvente.
“Com a visão 3D, isso muda completamente. O espectador passa a ter a sensação de estar acompanhando o piloto de perto.”
A visão tridimensional permite perceber o relevo, entender a diferença de altitude entre os competidores, ouvir o vario e visualizar melhor as decisões tomadas durante a prova.
Isso também dá mais recursos para comentaristas explicarem o que está acontecendo e torna a transmissão mais dinâmica.
A versão ao vivo do aplicativo já está ganhando recursos pensados para esse cenário. Entre eles, uma inteligência artificial que narra automaticamente os principais acontecimentos da prova em tempo real e um sistema de live stream, onde pilotos ou repórteres em campo poderão entrar ao vivo durante a competição.
“Eu imagino isso sendo exibido em um telão na rampa, no QG da competição, além da transmissão pela internet.”
A ideia é que o público possa acompanhar a corrida em 3D, ouvir a narração, acompanhar os comentários e também ver imagens reais dos pilotos durante a prova.
“Acho que isso tem um potencial enorme para aproximar o público do esporte e tornar as competições muito mais emocionantes.”
Quando fala sobre o Brasil no desenvolvimento de tecnologia para o voo livre, Serginho destaca que o país sempre teve pessoas talentosas criando soluções para o esporte.
“Acho que o Brasil sempre teve pessoas muito talentosas desenvolvendo tecnologia para o voo livre.”
Um ponto importante, segundo ele, é que muitos programadores também são pilotos. Isso faz diferença porque essas pessoas conhecem os problemas na prática.
“Nós temos vários programadores que também são pilotos. E isso faz muita diferença, porque eles conhecem os problemas na prática e acabam criando soluções para necessidades que eles mesmos vivem durante os voos e as competições.”
Ele lembra exemplos como Durval Henke, pela contribuição com o XC Brasil, Zenilson, pelo trabalho com sistemas de apuração em nível internacional, e Mario Cayenne, pelo desenvolvimento de aplicativos e soluções próprias para navegação.
“Espero que esse app seja mais uma contribuição para essa história e que incentive outras pessoas a também desenvolverem novas soluções para a comunidade.”
Para os próximos passos, Serginho afirma que o foco principal é melhorar as funcionalidades já existentes e a experiência de uso.
“No momento, meu principal foco é melhorar as funcionalidades existentes e a experiência de uso.”
A ideia é deixar o aplicativo cada vez mais intuitivo, para que qualquer pessoa consiga abrir uma prova e começar a navegar sem precisar de explicações complexas.
“Aprendi uma coisa na prática: os usuários não leem as instruções!”
Em paralelo, ele também está investindo na parte de live stream, permitindo que vários pilotos possam transmitir imagens ao vivo durante a competição.
A combinação entre visualização 3D, inteligência artificial narrando os acontecimentos e imagens reais dos pilotos pode mudar a forma como as competições de parapente são acompanhadas.
“Acredito que essa combinação entre visualização 3D, inteligência artificial narrando os acontecimentos e imagens reais dos pilotos pode transformar a forma como as competições de parapente são acompanhadas, tanto por quem voa quanto pelo público em geral.”
Ao final da conversa, Serginho deixa uma mensagem direta para os pilotos:
“Revejam seus voos.”
Para ele, muitas vezes a percepção durante a prova não corresponde exatamente ao que aconteceu. O replay permite voltar, observar com calma e entender melhor as decisões tomadas.
“Eu mesmo já mudei de opinião várias vezes depois de assistir a um replay e perceber que a prova não aconteceu do jeito que eu imaginava enquanto estava voando.”
E para quem gosta de tecnologia, a mensagem também é simples: colocar as ideias em prática.
“O voo livre ainda tem muito espaço para inovação, e quem vive o esporte normalmente sabe exatamente quais problemas precisam ser resolvidos.”
O trabalho de Serginho mostra justamente isso: quando a experiência prática do piloto se une à capacidade técnica de desenvolver soluções, o esporte ganha novas ferramentas, novas formas de aprendizado e novas possibilidades de crescimento.
É tecnologia brasileira criada dentro do voo livre, para fortalecer o próprio voo livre.
Conheça a solução no link: https://replay.procode.studio/
Fernando “Zoio” Brandalize
Diretor Executivo de Competições — CBVL