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Entre os dias 22 e 30 de agosto, Krushevo, na Macedônia do Norte, recebe o 2º FAI Junior World Paragliding Championships, Campeonato Mundial Júnior de Parapente FAI Categoria 1.
O Brasil está representado por Leonardo José Félix dos Santos, o “Leozinho”, e André Massao Okano, o “Japa”, dois pilotos que fazem parte de uma geração que começa agora a construir sua trajetória nas grandes competições internacionais.
Mas, desta vez, a participação brasileira começou muito antes da chegada dos atletas à Macedônia.
Nos últimos meses, a CBVL iniciou uma experiência de acompanhamento mais próximo dos dois pilotos, reunindo preparação técnica, estratégia de competição e acompanhamento psicológico dentro de um mesmo trabalho.
Participam desse processo o Team Leader e treinador Cristiano Ricci, o “Vermelho”, Gilberto, responsável pelo acompanhamento psicológico dos atletas, os dois pilotos e a CBVL, acompanhando diretamente o desenvolvimento do projeto.
É um trabalho ainda embrionário, mas que representa uma direção que a Confederação pretende ampliar nos próximos anos: estar cada vez mais próxima dos atletas que representam o Brasil e entender que a preparação de uma equipe nacional começa muito antes do primeiro dia de prova.
Competir em alto nível envolve muito mais do que técnica de pilotagem.
Equipamento, estratégia, tomada de decisão, disciplina, confiança, controle emocional, vida pessoal, capacidade de lidar com um erro e até a maneira como cada atleta responde à pressão fazem parte do desempenho dentro de uma competição.
André Massao resume bem essa mudança de percepção:
“A principal mudança foi entender que a competição começa muito antes do primeiro voo e que o nosso desempenho é construído muito antes.”
Para ele, o acompanhamento trouxe uma nova maneira de observar a própria competição.
“Passei a enxergar o campeonato como um conjunto de decisões e oportunidades, tentando me concentrar no momento presente, sem ficar olhando para o passado e sem criar expectativas futuras.”
Essa preparação também ajudou André a compreender melhor como sua condição mental interfere diretamente nas decisões tomadas durante o voo.
“Aprendi a lidar melhor com os erros e com os momentos de adversidade, sem deixar que um momento ruim do voo me impeça de buscar uma recuperação.”
Leozinho percebe uma mudança semelhante.
Segundo ele, o acompanhamento tem ajudado tanto na parte técnica quanto, principalmente, na psicológica.
A maior transformação aparece na maneira de lidar com a cobrança por resultados.
“Passei a encarar a competição com mais calma e confiança. Antes eu me cobrava muito pelo resultado, mas hoje entendo que preciso confiar mais no meu preparo, fazer o meu melhor e viver cada momento da competição.”
Ele também destaca a importância de não permitir que um erro comprometa tudo o que ainda existe pela frente.
“Aprendi a controlar melhor a ansiedade e a não deixar um erro ou um resultado ruim atrapalhar o restante da prova. Hoje entro para competir mais focado no processo e menos preocupado com o que está fora do meu controle.”
Na preparação técnica, o trabalho está sob responsabilidade de Cristiano Ricci “Vermelho”, Team Leader da equipe brasileira.
O período disponível e os compromissos dos atletas limitaram os treinamentos presenciais. Foi possível realizar apenas um treino conjunto, ainda em condições meteorológicas pouco favoráveis.
Por isso, parte importante da preparação aconteceu também fora do ar.
A equipe realizou reuniões para estabelecer estratégias, táticas e objetivos compatíveis com o nível técnico dos dois pilotos e com as características da competição.
Para Cristiano, alguns pontos são fundamentais quando se prepara um piloto jovem para um campeonato dessa dimensão:
“Estar confortável com o equipamento, estar bem de cabeça, traçar objetivos reais e manter a disciplina estratégica e tática.”
Leozinho e André ainda estão adquirindo experiência dentro das competições, e esse processo também faz parte da formação.
Por isso, o trabalho não foi construído a partir de uma obrigação de resultado, mas de metas definidas considerando o momento esportivo de cada atleta.
É uma diferença importante entre simplesmente enviar pilotos para uma competição e começar a construir atletas para uma trajetória competitiva.
Outro componente que começou a ser incorporado neste trabalho foi o acompanhamento psicológico direcionado às particularidades da competição de parapente.
Gilberto divide essa preparação em dois grandes aspectos: emocionais e comportamentais.
Segundo ele, não existe uma fórmula única que possa ser aplicada igualmente a todos.
“Cada um desses aspectos ganha peso e significado diferente de acordo com a vivência, estrutura, perfil emocional e comportamental que cada piloto traz sobre sua vida.”
Essa individualização é especialmente importante em um esporte no qual decisões precisam ser tomadas constantemente e, muitas vezes, sob pressão.
Escolher uma linha, permanecer ou abandonar uma térmica, atacar ou ser conservador, seguir um grupo, assumir uma decisão diferente ou reconstruir uma prova depois de um erro são situações nas quais técnica e estado mental caminham juntos.
Para Gilberto, mesmo diante de todo o conhecimento técnico e teórico necessário para voar, a preparação mental possui papel decisivo na capacidade de produzir os resultados esperados.
O próprio acompanhamento dos dois atletas ainda está no começo.
Gilberto reconhece que o tempo disponível e os compromissos de cada piloto não permitiram desenvolver tudo o que poderia ser trabalhado.
Mas o primeiro passo já produziu algo importante: estimular em cada atleta um olhar mais crítico sobre suas próprias dificuldades, demandas e comportamentos diante do voo.
Esse processo também transforma o trabalho em aprendizado para o futuro.
Não se trata apenas de preparar dois atletas para uma competição, mas também de entender melhor como os diferentes perfis de pilotos respondem ao ambiente competitivo e como a preparação psicológica pode ser integrada ao voo livre brasileiro.
A escolha de começar esse projeto justamente com os pilotos juniores não é por acaso.
Eles representam a próxima geração do esporte brasileiro.
Ao mesmo tempo em que a CBVL precisa continuar trabalhando com os atletas Open e com equipes formadas por pilotos que acumulam anos de experiência, também é necessário olhar para quem está entrando agora no ambiente competitivo.
Grandes atletas não são construídos somente quando chegam ao topo.
Eles precisam ser acompanhados durante o caminho.
Identificar dificuldades desde cedo, compreender características individuais, orientar decisões, criar experiência internacional e oferecer ferramentas para evolução técnica, emocional e comportamental fazem parte dessa construção.
Os juniores oferecem justamente essa oportunidade: trabalhar com pilotos no começo da trajetória e ajudá-los a desenvolver bases que poderão carregar durante muitos anos de competição.
É um investimento que não olha somente para o campeonato que está acontecendo agora, mas para os próximos.
Para os dois pilotos, todo esse processo ganha ainda mais significado quando chega o momento de vestir as cores do país em um Campeonato Mundial.
Para Leozinho, a experiência representa a realização de um sonho.
“É uma honra e uma responsabilidade muito grande. Representar o Brasil, principalmente em um Mundial Júnior, é a realização de um sonho que começou há muitos anos.”
Ele também reconhece que chegar até esse momento envolve muito mais pessoas do que apenas quem está dentro da competição.
“Eu sei de todo o esforço que foi necessário para chegar até aqui e de todas as pessoas que acreditaram em mim e me ajudaram nesse caminho.”
André compartilha sentimento semelhante.
“Representar o Brasil em um Mundial Júnior é uma honra enorme e também uma realização pessoal muito grande.”
Para ele, estar em Krushevo significa também ter a oportunidade de medir sua evolução diante dos melhores pilotos da sua geração.
“É a oportunidade de competir entre os melhores pilotos da minha geração e levar comigo o nome do meu país, da minha equipe e de todas as pessoas que me ajudaram a chegar até aqui.”
Independentemente do que mostrar a classificação ao final da competição, os dois já carregam dessa experiência algo que poderá ser utilizado nos próximos passos de suas carreiras.
O próprio Campeonato Mundial Júnior ainda está construindo sua história.
A primeira edição foi realizada em 2024, em Tolmin, na Eslovênia, reunindo 76 pilotos de 20 países. O espanhol Marcelo Sanchez Vilchez tornou-se o primeiro Campeão Mundial Júnior de Parapente da história.
Dois anos depois, a segunda edição acontece em Krushevo, Macedônia do Norte, entre 22 e 30 de agosto de 2026.
A programação contou com treinamento não oficial no dia 22, treinamento oficial no dia 23 e período competitivo entre os dias 24 e 30 de agosto. O site oficial registra 113 pilotos inscritos, 49 confirmados e representantes cadastrados de 27 países.
Krushevo está situada a aproximadamente 1.350 metros de altitude e é uma das regiões tradicionais de voo e competição dos Bálcãs.
Para Leozinho e André, portanto, participar desta edição significa também fazer parte dos primeiros capítulos de uma categoria mundial criada justamente para desenvolver a nova geração do parapente competitivo.
Naturalmente, uma competição possui classificação, pontos, posições e objetivos esportivos.
Cristiano e a CBVL estabeleceram metas e estratégias para os dois atletas levando em consideração o nível técnico atual de cada um e as características do campeonato.
Mas, para este primeiro trabalho, reduzir o sucesso do projeto ao número que aparecerá na classificação final seria deixar de observar aquilo que está sendo construído.
O resultado de uma competição é um número dentro de um processo muito maior.
O que permanece é a experiência adquirida, a capacidade de reconhecer erros, o desenvolvimento da tomada de decisão, a segurança, o amadurecimento emocional e tudo aquilo que poderá ser levado para a próxima competição.
Cristiano resume o objetivo que enxerga além deste Mundial em poucas palavras:
“Fortalecimento da base do parapente no Brasil.”
Gilberto também observa esse trabalho como o começo de algo muito maior.
“Estamos só no início de uma grande jornada de transformação nacional de comportamento dos pilotos competidores de voo livre.”
Para ele, existe grande potencial para que o atleta brasileiro evolua não somente tecnicamente, mas também na atenção aos aspectos emocionais e comportamentais ligados ao Race e ao caminho para a alta performance.
Dentro da nova gestão, um dos objetivos da CBVL é construir uma relação cada vez mais próxima com o associado e, especialmente no ambiente competitivo, com o atleta que recebe a responsabilidade de representar o Brasil internacionalmente.
Essa proximidade significa tentar compreender o piloto além do resultado.
Significa identificar suas necessidades, acompanhar sua preparação, oferecer ferramentas para que possa evoluir e construir uma estrutura capaz de ajudá-lo antes, durante e depois das grandes competições.
O projeto iniciado com os juniores é o primeiro passo desse novo formato.
A experiência está sendo observada, documentada e estudada para que possa evoluir e, progressivamente, alcançar outras equipes e modalidades.
O objetivo é construir um modelo uniforme de acompanhamento dos atletas brasileiros, respeitando as particularidades de cada categoria e de cada piloto.
Para tornar isso possível em uma escala cada vez maior, a CBVL também pretende ampliar a busca por apoios, patrocínios e novas formas de captação de recursos, permitindo investir de maneira mais consistente na preparação das equipes nacionais.
Porque formar campeões exige tempo.
Exige técnica, conhecimento, estrutura, saúde emocional, experiência, erros, aprendizado e continuidade.
E, acima de qualquer posição em uma classificação, esse conhecimento também produz algo fundamental para o voo livre: pilotos melhores, mais conscientes e mais seguros.
A participação de Leozinho e André no 2º Mundial FAI Júnior representa, portanto, muito mais do que uma competição.
Representa o começo de um caminho que a CBVL pretende transformar em parte estrutural da preparação das equipes brasileiras.
Um trabalho pensado não somente para o Mundial de hoje, mas para os atletas e campeões que o Brasil pretende construir para os próximos anos.
Site oficial do 2º FAI Junior World Paragliding Championships: CIVL Comps – Junior Worlds 2026
Referência histórica da primeira edição: FAI – First ever Junior Paragliding Champions
Fernando “Zoio” Brandalize
Diretor Executivo de Competições – CBVL