Transcapixaba 2026: quando o Hike and Fly brasileiro atravessou um estado inteiro

07 de agosto de 2026 - Por Micheli Sossai

Durante 12 dias, o Espírito Santo se transformou em um grande desafio para 20 atletas de 6 nacionalidades diferentes. Da divisa norte até o extremo sul do estado, atletas da Transcapixaba Hike and Fly 2026 enfrentaram aproximadamente 600 quilômetros de uma rota que exigiu muito mais do que voar e caminhar. As equipes precisaram administrar escolhas e estratégias ao longo de uma competição de endurance que colocou à prova tanto os atletas quanto suas equipes.

A Full Edition 2026 nasceu de uma ideia que parecia ousada até mesmo para quem já conhecia a Transcapixaba: transformar em competição a travessia integral realizada por Lucas Porto em 2022 e que deu origem ao projeto. Depois de três edições em trechos menores pelo Espírito Santo, chegou o momento de unir tudo em uma única prova.

A rota foi estruturada com 12 turnpoints e atravessou algumas das regiões mais emblemáticas do voo livre capixaba. Ecoporanga, Águia Branca, Pancas, Cinco Pontões, Venda Nova do Imigrante, Forno Grande, Castelo, Alegre e o extremo sul do Espírito Santo fizeram parte de uma sequência de terrenos completamente diferentes entre si.

Para quem conhece o voo livre, essa diversidade ajuda a dimensionar o desafio, já que a travessia não acontece em um único vale, nem em uma região com comportamento meteorológico uniforme. Ao avançar pelo estado, os atletas encontraram mudanças de relevo, orientação das montanhas, vales, áreas de transição e diferentes possibilidades de decolagem e pouso.

A largada aconteceu em Vila Pereira e, após 12 km de caminhada/corrida, os atletas encontraram o primeiro afloramento montanhoso do território capixaba, na região de Córgão, município de Ecoporanga. Após assinarem a placa do Turnpoint 1, eles escolheram o melhor ponto de decolagem e se lançaram para o primeiro voo. A partir de então, começava a corrida de Hike and Fly mais desafiadora das Américas.

A previsão para os três primeiros dias de competição não era muito promissora para seguir em direção à rota, mas a maior parte dos atletas continuou avançando e vencendo o início crítico da corrida, em busca de condições melhores a partir de Águia Branca e Pancas.

A melhor estratégia foi a do time paranaense, liderado pelo atleta Gabriel Jansen. Ele fez trechos estratégicos voando e caminhando e conseguiu se posicionar muito bem na Rampa do Monjolo para fazer seu melhor dia de prova e encaixar dois toplandings no mesmo dia: nos Cinco Pontões e, depois, no Forno Grande, de onde decolou para um “final glide” até próximo a Burarama. Dessa forma, Gabriel garantiu um dia à frente dos próximos atletas, que, no mesmo dia, chegaram próximos aos Cinco Pontões.

Além da competição, a travessia do Espírito Santo proporcionou a muitos atletas e suas equipes grandes momentos de confraternização em família, como foi o caso do time argentino do atleta Nicolas Hayes, que ficou em 2º lugar na competição. Ele estava com sua irmã Camila e seu irmão Thomas. Durante todos os dias, o time dormiu em casas de pessoas dos vilarejos por onde passavam, e a receptividade do povo capixaba foi o que mais encantou os irmãos.

Doze dias também são uma prova de gestão

Em uma competição curta, é possível aceitar um nível maior de desgaste. Em uma travessia de 12 dias, essa lógica muda completamente. Sono, alimentação, hidratação, recuperação muscular, equipamentos, pés, deslocamento da equipe de apoio e planejamento do dia seguinte passam a fazer parte do resultado esportivo.

O atleta não compete apenas contra os adversários. Compete contra o próprio desgaste acumulado. Esse talvez tenha sido um dos aspectos mais interessantes da Full Edition. Conforme os dias avançavam, ficava cada vez mais evidente que a velocidade, isoladamente, não seria suficiente. Era necessário encontrar um ritmo sustentável e preservar capacidade física e mental para continuar tomando boas decisões.

Uma modalidade brasileira que começa a amadurecer

Talvez o principal legado da Transcapixaba não esteja apenas nos quilômetros percorridos. Quando os organizadores Lucas Porto e Micheli Sossai fizeram as primeiras competições de Hike and Fly no Espírito Santo, o número de pilotos brasileiros familiarizados com o formato ainda era pequeno. Estratégias, equipamentos, logística de suporte e até a maneira de interpretar uma competição desse tipo estavam sendo aprendidos.

Para os organizadores, a evolução ao longo dos últimos anos é perceptível. Hoje existem mais atletas interessados, pilotos se preparando especificamente para Hike and Fly e brasileiros buscando competições fora do país. Ao mesmo tempo, atletas estrangeiros passaram a vir ao Brasil para competir, trazendo diferentes experiências e formas de enxergar a modalidade.

Esse intercâmbio é particularmente importante em um momento em que o Hike and Fly ganha maior estruturação competitiva internacional.

A Transcapixaba também passou a integrar o calendário esportivo internacional da modalidade, já que se trata de uma prova com nível técnico elevado. Assim, seus participantes somam pontos no sistema vinculado às competições reconhecidas pela FAI. Isso coloca uma prova realizada no interior do Espírito Santo dentro de um circuito muito maior e cria novas possibilidades para os atletas brasileiros.

Muito além dos pilotos

Uma prova dessa dimensão também mostrou que Hike and Fly não é um esporte individual quando visto do lado de fora. Por trás de cada atleta existe uma equipe de suporte. E, por trás da competição, uma estrutura ainda maior: direção de prova, rastreamento, segurança, resgate, atendimento médico, comunicação, fotografia, produção audiovisual e pessoas espalhadas por centenas de quilômetros de percurso. Em 12 dias de competição, essa estrutura precisou se deslocar junto com a prova.

Talvez um dos resultados mais importantes da edição 2026 seja justamente aquele que não aparece no ranking: a competição terminou sem nenhum acidente, depois de centenas de quilômetros percorridos em ambientes de montanha e voo livre. Para uma prova de aventura dessa dimensão, segurança também é resultado.

A Transcapixaba depois da Full

A edição de 2026 encerrou um ciclo. A travessia realizada pela primeira vez em 2022 finalmente foi transformada em competição e mostrou que é possível organizar no Brasil uma prova de Hike and Fly de longa distância, atravessando diferentes regiões e mantendo uma operação móvel durante vários dias.

Segundo os organizadores, a Full Edition voltará a acontecer em 2028 e o plano é que siga acontecendo de dois em dois anos. Mas, para quem quiser experimentar a corrida, em 2027 ela volta a acontecer em um formato menor, a Short Edition, abrangendo novamente um dos trechos da Full Edition.

O que permanece é a ideia que deu origem a tudo: conhecer o Espírito Santo caminhando e voando.

Fotos: Arthur Oliveira

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