Hike & Fly: o Primeiro Brasileiro e o Início de uma Nova Construção Competitiva

16 de setembro de 2026 - Por Fernando Brandalize (Zóio)

Campeonato Brasileiro de Hike & Fly - Andradas (MG)

O Hike & Fly vive um momento importante de transformação no Brasil e no cenário internacional.

Durante muitos anos, a modalidade esteve ligada principalmente a desafios de aventura, travessias, montanhismo e grandes provas com formatos próprios. Agora, começa também a ganhar uma estrutura esportiva mais definida, com regulamentos, rankings, competições oficiais e integração cada vez maior com o sistema FAI.

No Brasil, esse movimento ganha um novo capítulo com a realização do primeiro Campeonato Brasileiro de Hike & Fly, em Andradas (MG).

Mais do que inaugurar um campeonato, o evento representa o início de um processo de construção.

Assim como acontece com qualquer nova modalidade competitiva, dificilmente o primeiro formato será definitivo. Serão necessários eventos, experiências, avaliações e ajustes para entender quais regras funcionam melhor, quais formatos se adaptam à realidade brasileira e quais caminhos permitirão que o Hike & Fly cresça de forma segura e sustentável.

A CBVL entende esse processo como parte de um projeto maior: criar oportunidades e caminhos esportivos para todas as modalidades do voo livre brasileiro, oferecendo aos seus atletas estruturas de competição, rankings, desenvolvimento técnico e possibilidades de representação internacional.

Para entender melhor esse momento, conversamos com Micheli Sossai, Diretora de Competições de Hike & Fly da CBVL, e com Rafael Souto, atleta de Hike & Fly e um dos organizadores do primeiro Campeonato Brasileiro da modalidade.

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Página oficial do evento: Campeonato Brasileiro Hike & Fly - Etapa Andradas

Rastreamento ao vivo dos pilotos: Flymaster Live Tracking - Grupo 7988

Uma Modalidade que Começa a Ganhar Estrutura

Para Micheli Sossai, a entrada do Hike & Fly dentro de uma estrutura institucional é um passo importante para o desenvolvimento do esporte.

“A estruturação do Hike and Fly junto às instituições que o regulamentam é importante para a evolução segura da modalidade. Com o apoio da FAI e da CBVL, os atletas podem se profissionalizar e os eventos passam a ter mais respaldo para serem realizados.”

Além da organização das competições, esse processo começa a criar algo fundamental para qualquer modalidade esportiva: continuidade.

Calendários, rankings e competições estruturadas permitem que os atletas tenham referências mais claras para sua evolução e também ampliam o intercâmbio entre diferentes regiões e países.

Mas o Hike & Fly competitivo ainda está aprendendo a encontrar seus próprios caminhos.

Segundo Micheli, isso acontece inclusive no cenário internacional.

“Com certeza teremos muita evolução a partir desse primeiro Campeonato. Principalmente porque os modelos de competição de Hike and Fly no mundo todo ainda estão em fase de testes e desenvolvimento.”

A própria FAI ainda trabalha na construção de fórmulas e parâmetros para os rankings da modalidade.

E justamente aí aparece uma das particularidades do Hike & Fly.

Apesar de estar inserido dentro do parapente, as variáveis utilizadas para avaliar uma competição não são necessariamente as mesmas das provas tradicionais de Race.

Caminhada, altitude acumulada, distância percorrida no solo, deslocamento em voo, estratégias diferentes de rota e formatos variados de prova tornam o cenário muito mais complexo.

Por isso, a Diretoria de Hike & Fly da CBVL, em conjunto com atletas e organizadores, começou também a desenvolver uma regulamentação adaptada à realidade brasileira.

Olhar para o Mundo, mas Construir uma Identidade Brasileira

Para elaborar as primeiras normas nacionais, Micheli buscou referências em alguns dos países que já possuíam estruturas específicas para a modalidade.

“Para a elaboração da primeira normatização busquei referências de campeonatos das confederações da Suíça, França e Itália.”

Mas o trabalho não se limitou a importar modelos estrangeiros.

Experiências de competições que já vinham acontecendo no Brasil também entraram nessa construção.

“Utilizei algumas informações de competições que já vinham sendo realizadas no Brasil, para tentar incluir e valorizar todos os modelos praticados, do mais simples ao mais complexo.”

Esse talvez seja um dos principais desafios dos próximos anos.

O Brasil possui dimensões continentais, diferentes tipos de relevo, climas, estruturas logísticas e realidades muito distintas das encontradas em boa parte da Europa.

Por isso, referências internacionais são importantes - mas dificilmente poderão ser simplesmente reproduzidas.

Rafael Souto também vê essa adaptação como fundamental.

“Acho importante pegar o que serve deles para a gente, mas encontrar a nossa fórmula. Só nós sabemos as dificuldades de viver num país continental, com diversos tipos de clima e desafios logísticos.”

E o Brasil já começa também a participar dessa troca internacional não apenas como quem observa.

Segundo Micheli, outros países passaram a acompanhar o desenvolvimento brasileiro.

“Neste momento, ao invés de buscarmos modelos em outros países, estamos também fazendo parte do cenário mundial e servindo de referência para outros países. Como, por exemplo, a Federação da Argentina, que está em constante contato conosco e replicando o formato aplicado no Brasil.”

Entre a Montanha e a Competição

Para Rafael Souto, um dos pontos mais importantes dessa evolução será preservar aquilo que sempre caracterizou o Hike & Fly.

A modalidade não nasceu apenas como competição.

Existe nela uma ligação muito forte com a montanha, a aventura e a jornada realizada pelo atleta.

“Acho que o equilíbrio vai ser o Hike & Fly manter o espírito do montanhismo, sua ética de montanha, mas ao mesmo tempo aproveitar a estrutura competitiva montada da FAI.”

Para ele, essa identidade não pode ser perdida.

“Isso que acho legal do Hike & Fly, porque não é somente o voo, mas sim sua jornada até ele.”

Essa combinação é justamente o que torna a modalidade tão particular.

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