A Suíça em Busca dos 600 km no Céu do Nordeste
Outubro marca o início da temporada de voos de distância no Sertão brasileiro — um dos melhores lugares do mundo para o voo livre. E se alguém ainda duvidava disso, a equipe da Swiss XC League acaba de comprovar mais uma vez o potencial dessa região singular.
Em meio a paisagens áridas repletas de beleza e cultura, os pilotos suíços protagonizaram voos com marcas expressivas. Os destaques da temporada até agora foram os voos de Sebastian Benz (592 km OLC) e Patrick Meyer (588 km OLC) — ambos impressionantes não apenas pela distância, mas pelas condições em que foram realizados.
O Sertão: Terreno, Cultura e Céu Incomparáveis
Para a Suíça, país com tradição em Hike & Fly, Acro e competições técnicas, o Sertão representa algo diferente: liberdade, espaço e a chance de voar por 10 ou 11 horas seguidas em céu aberto, longe de zonas de alto tráfego aéreo e cercado por uma cultura vibrante.
Essa visão encantada da região foi compartilhada por Stephanie Westerhuis, que encabeça a Swiss XC League e concedeu uma entrevista especial para este artigo. Leia abaixo o depoimento completo — um olhar estrangeiro que revela tanto sobre o potencial do Sertão quanto sobre a hospitalidade brasileira.

5 Perguntas para Stephanie Westerhuis
Head da Swiss XC League e entusiasta do Sertão nordestino

- O que mais impressiona você quando voa no Sertão?
Do ponto de vista meteorológico, acho fascinante que as primeiras térmicas comecem tão cedo. E mais ainda: não são apenas algumas bolhas perdidas, mas térmicas consistentes! Além disso, fico impressionada que às vezes as térmicas sejam realmente suaves, apesar do vento forte. Claro, a paisagem também é de tirar o fôlego — uma região seca, pontuada por muitos lagos. É realmente especial.
- Como você descreveria o "estilo brasileiro" de voo livre?
Aprendi algo que levo comigo: “No Brasil, não existem problemas, só soluções”. Muito vento na decolagem? A equipe do reboque resolve e te coloca no ar com segurança. Durante o voo — quase nenhum espaço aéreo para se preocupar. Sem sinal após o pouso? Uma alma generosa te pega de moto e te leva para uma casa com Wi-Fi, sombra e bebida gelada. E o mais especial: mesmo sendo uma garota loira, sozinha, nunca me senti desconfortável por um segundo sequer entrando no carro de um desconhecido. Isso definitivamente não acontece em muitos países onde já estive.
- Depois de tantas viagens a Caicó, o que continua te trazendo de volta?
Além da vibe brasileira e da beleza da paisagem, o fato é que Caicó oferece muitos dias bons de voo. Acontece com frequência: tiramos duas semanas de férias nos Alpes e simplesmente não temos um único dia bom de voo. Aqui no Sertão, você decola praticamente todos os dias e tem grandes chances de pegar dias excepcionais.
- Qual foi o momento mais inesquecível (ou mais louco) da sua última viagem ao Brasil?
Para mim, o mais bonito foi a última hora de voo no pôr do sol. As térmicas naquele dia tinham sido cansativas. Quase pousei várias vezes. Vi o sol se pondo e comecei a procurar um campo aberto para pousar, achando que o dia tinha acabado. Mas, para minha surpresa, encontrei uma térmica suave… depois mais uma… e outra… Os urubus me mostraram a última térmica do dia e eu entrei em um planeio final mágico, que me levou até o pouso dos meus companheiros de equipe — que estavam quilômetros à frente durante todo o dia. Foi indescritível.
- Do seu ponto de vista, o Brasil pode ser o palco do próximo recorde mundial?
Sim, acreditamos que sim. No dia 30 de outubro, as condições estavam ideais para isso. A base de nuvens excepcionalmente alta no fim do dia foi a chave. Sebi fez um voo mais longo em distância, mas Paddy voou mais rápido durante boa parte do tempo. Se conseguirmos unir a estratégia dos dois — Sebi aproveitando o dia inteiro e Paddy seguindo a linha rápida — podemos sim quebrar o recorde atual. Está ao alcance. Só falta encaixar tudo no mesmo dia.

Uma Nova Janela para o Voo Mundial
Com infraestrutura, segurança e um clima que impressiona até os pilotos mais experientes, o Sertão brasileiro se consolida cada vez mais como um dos lugares mais promissores do planeta para quem busca voos épicos.
E além de ser um palco técnico de excelência, o Sertão oferece algo que nenhuma ferramenta de previsão consegue medir: a emoção de voar em um território onde o céu é generoso e o povo, mais ainda.
Em 2025, a temporada começou com o pé direito. E talvez — quem sabe — seja nesse mesmo outubro que veremos o Brasil escrever mais uma vez seu nome na história do voo livre mundial.