Nova Norma Regulamentar da CBVL é aprovada e entra em vigor em março
Daniel Mayall Fala Sobre a Histórica Expedição ao Kilimanjaro
Moshi, 04 de fevereiro de 2026
Oficialmente criamos um grupo e começamos a trocar mensagens sobre possíveis voos na África em abril de 2023, embora eu (Daniel Mayall), Rafael Saladini e Rafael Souto já estudássemos o voo do Kilimanjaro – cada um por conta própria – desde muito antes. E foi exatamente esse interesse comum que fez a ideia ganhar força. Descartamos outros locais que estávamos avaliando e focamos apenas nesta grande aventura de Hike & Fly.
A organização da viagem teve o apoio fundamental da Linda Willemse, da Paraglide Kilimanjaro, que tem mais de 25 anos de experiência organizando esse tipo de expedição. Ao longo das reuniões de planejamento, pudemos confirmar o profissionalismo com que ela tratava o assunto: teríamos três guias de montanha, cada um com mais de 400 subidas ao cume do Kilimanjaro. Nosso guia de parapente seria ninguém menos que o sul-africano Pierre Carter – participante de três X-Alps – e que acabara de voltar de duas expedições de Hike & Fly: uma para o Aconcágua, na Argentina, e outra para o Monte Vinson, na Antártica.
Com uma equipe desse calibre, voltamos nosso foco à preparação. Cada um de nós optou por um caminho diferente. Os Rafas, que já estavam totalmente inseridos no mundo do Hike & Fly, com três Trans Capixabas nas costas, seguiram os treinamentos com os quais já estavam habituados. Eu, que estava bem atrás em termos de preparo, optei por bicicleta e musculação, sabendo que talvez tivesse mais dificuldades que eles. O que todos tínhamos bastante claro é que o desgaste do corpo em alta montanha e os efeitos da altitude costumam ser imprevisíveis. Portanto, independentemente do treinamento prévio, só saberíamos o que nos esperava quando iniciássemos a subida.

Pelo nosso planejamento, todos deveríamos estar em Moshi no dia 24 de janeiro. O dia 25 seria reservado para o briefing, inspeção dos equipamentos de voo e de acampamento, configuração dos eletrônicos – incluindo pousos, espaço aéreo, frequência de rádio, localizadores por GPS e contatos de emergência – além dos últimos ajustes.
O Monte Kilimanjaro é a maior montanha da África, com altitude de 5.895 m ASL. A montanha é um vulcão adormecido cuja origem data de mais de um milhão de anos. Seu ponto mais alto é o Pico Uhuru, porém a montanha conta ainda com outro pico de impressionante beleza, chamado Mawenzi, com 5.149 m ASL. Ambos os picos são conectados por uma planície de altitude chamada popularmente de “cela”. Outro fato relevante, muito comentado aqui na Tanzânia, é que o Monte Kilimanjaro é a montanha mais alta do mundo considerando altura livre, ou seja, desde sua base até o cume, uma vez que ele nasce verticalmente a partir de uma altitude de 700 m ASL, não fazendo parte de nenhuma cadeia de montanhas.
Parece uma loucura ir até a África para decolar de parapente sem autorização das autoridades para tal. E de fato é: nós tínhamos tudo certo, porém fomos surpreendidos poucas semanas antes por um acidente de helicóptero que fez com que as autoridades fechassem todo o espaço aéreo e cancelassem todas as autorizações já concedidas até segunda ordem. Isso fez com que literalmente tivéssemos que recomeçar do zero, sob um novo regramento que ainda nem havia sido escrito. Aqui foi fundamental o papel da Linda, que não mediu esforços para conseguir a liberação, chegando a levar uma vela aos agentes governamentais e inflá-la para que eles pudessem entender como funciona a decolagem de um parapente. O fato é que não tínhamos alternativa: tivemos que começar nossa subida e confiar que a liberação viria.
Iniciamos nosso trajeto no dia 26 de janeiro de 2026, às 9h30 da manhã. O primeiro trecho seria de carro até o acesso da Rota Rongai, na parte nordeste do Parque. A partir dali seriam quatro dias de subida, de intensidade leve a moderada, com foco na aclimatação. Nesse processo, ainda tínhamos que levar em consideração as duas principais variáveis que, até aquele momento, eram grandes incógnitas para nós: a autorização para decolagem e as condições meteorológicas. Essas incertezas nos acompanhariam literalmente até o final, como detalharei a seguir.
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Os primeiros dias foram relativamente tranquilos. Caminhávamos devagar, ou pole-pole, como diziam os guias locais. A lógica é simples: com pouco tempo para aclimatar, é preciso poupar o máximo de energia possível para o ataque ao cume. Na primeira noite dormimos a 2.600 m ASL. Já na segunda noite, após um dia inteiro de caminhada, dormimos a 3.450 m ASL. No terceiro dia tivemos o primeiro contato com a altitude de verdade, superando os 4.000 m ASL ao longo da trilha, para no final descermos e dormirmos a 3.900 m ASL.
Nesse dia tivemos que tomar nossa primeira decisão importante. A previsão no aplicativo sugerido pelo nosso guia indicava ventos acima de 25 km/h no pico, o que, para quem entende de previsão, geralmente significa rajadas ainda mais fortes. Deveríamos optar entre ficar mais uma noite nesse acampamento e aclimatar com mais calma ou seguir para o último acampamento – Kibo Hut – a 4.600 m ASL, onde a única fonte de água ficava a 3 km de distância. Felizmente, próximo ao acampamento 3 havia uma pedra onde a internet funcionava bem. Ao verificarmos outros sites de previsão, vimos que a intensidade do vento não era tão forte em nenhum dos quatro modelos disponíveis: GFS, ECMWF, ICON e Meteoblue. Acreditando na melhora da previsão, optamos por seguir e ficar o mais próximo possível do cume, a fim de aproveitar qualquer janela que surgisse.
Chegamos ao último acampamento às 13h. Até aquele momento ainda não tínhamos a confirmação sobre a autorização para a decolagem. Caso fôssemos realmente subir, precisaríamos nos alimentar e descansar, pois iríamos levantar às 23h para começar a subir à meia-noite. Acreditando em um final feliz, deixamos tudo pronto e, utilizando um telefone satelital (não havia sinal de internet), ligamos para a Linda às 17h. Foi nesse momento que finalmente tivemos uma notícia animadora: as autoridades haviam concedido a liberação por escrito! Mal conseguimos conter a animação. A vontade era começar a subir naquele instante, mas mantivemos a calma e o foco no combinado. Tentamos dormir (o máximo que a ansiedade permitia) e colocamos o alarme para as 23h.
Despertamos com um sentimento diferente. O frio implacável que nos acompanhava até então, com temperaturas bem abaixo de zero à noite, parecia ter dado uma trégua. A lua estava crescente e era possível ver as estrelas brilhando forte no céu. Tínhamos pela frente uma subida ininterrupta de 1.000 m em um solo difícil de cascalho e cinzas vulcânicas. Como a inclinação era alta, precisávamos seguir em um zigue-zague infinito até a borda do antigo vulcão.
Foram cinco horas de subida com pouquíssimas pausas. Quando chegamos à metade do percurso, entendemos por que a temperatura estava mais amena: havia uma inversão térmica até a camada dos 5.000 m ASL. Somente quando superamos essa altura tivemos contato com a real temperatura que nos esperaria pelo resto da subida. O frio e o vento davam uma sensação térmica abaixo dos 10 graus negativos. As mangueiras dos camelbacks congelaram e se tornaram inúteis. Só podíamos contar com as garrafas térmicas e com o chá que os guias levaram para nós. Ao olharmos para baixo, já não conseguíamos ver o acampamento por causa da forte inversão que cobria a parte inferior da montanha. A altitude começava a mostrar suas caras. Nossas pernas já não acompanhavam nossas vontades e cada passo ficava mais difícil. Para piorar, quanto mais alto ficávamos, mais inclinada era a subida e mais zigue-zague precisávamos fazer. O último trecho foi o pior: uma escalaminhada a 5.500 m ASL e nada de vermos o final da subida.
Foi apenas quando chegamos à borda da cratera que surgiu a primeira luz no horizonte. Era o amanhecer no topo da África. Com essa luz, conseguimos ler o que estava escrito na placa que nos recepcionou: Gilman’s Point – 5.681 m ASL. Essa claridade que, por um lado, nos deu nova energia, também nos trouxe uma verdade implacável: ainda estávamos a 2 km de distância e 214 m de altitude do Pico Uhuru. Nesse momento não havia mais estratégia. Cada um teria que dar o seu melhor para chegar ao cume e depois voltar cerca de 15 minutos até o local de decolagem.

O Rafael Souto foi quem reagiu melhor. Para ele, chegar até Gilman’s Point e ver que o vento estava suave foi a injeção de ânimo necessária. Seguiu na frente junto com Pierre Carter. Rafael Saladini teve uma subida difícil até Gilman’s, mas conseguiu, na raça, continuar andando – pole-pole – em direção ao Pico Uhuru. Eu, que até então estava bem fisicamente, fui quem teve mais dificuldade. Por não ter entendido bem a distância que ainda teríamos que caminhar na borda da cratera, acabei gastando mais energia do que devia na subida até Gilman’s. Isso me custou muito caro. Fui andando no limite da minha força física, parando a cada três ou quatro passos. Quase desisti duas vezes, quando sentei para descansar e quase adormeci. Não fosse o guia que me acompanhava, talvez eu não tivesse conseguido completar a subida.
Cada um do seu jeito e em tempos diferentes, chegamos ao cume. 5.895 m ASL: estávamos oficialmente no topo da África! Mas não havia tempo para comemorar. Nosso objetivo não era apenas subir; estávamos ali para decolar! A orientação do nosso guia Pierre era clara: “O vento está perfeito, não podemos perder tempo! As condições mudam rapidamente na montanha. Façam o cume e venham o mais rápido possível para a decolagem. O equipamento de vocês estará lá esperando para ser checado!”
Quando cheguei à decolagem, eu estava completamente exausto. Para minha surpresa, os Rafas já estavam checados, engatados e prontos para decolar. O vento estava perfeito e não havia mais o que esperar. Foi o tempo de chegar perto deles e fazer o desejo que todo piloto faz a seus irmãos alados: “Bom voo!”. E assim, rapidamente, os dois decolaram. Ainda foram agraciados com uma termal na cara da rampa e conseguiram girar e ver o Monte Kilimanjaro em todo o seu esplendor.
Embora eu quisesse admirar a beleza do voo dos meus amigos, não havia tempo a perder. Pierre novamente reforçou: “Sem querer te apressar, mas o vento está virando. Se você demorar, pode acabar tendo que descer a pé!”. Cansado do jeito que eu estava, ele nem precisou repetir. Conectei-me ao equipamento que já tinha sido aberto pelos guias. Chequei as linhas e inflei. O vento realmente estava bem lateral, quase caudal naquele momento. Tentei manter a vela na cabeça, mas com aquele vento não era possível. Pensei comigo mesmo: “Será que logo na minha vez o vento vai virar? Será que vou ter que descer a pé?”. Abaixei a vela e respirei fundo. “Eu só preciso de uma bufinha”, pensei. Quase instantaneamente senti o vento novamente batendo nas minhas costas. Era o momento! Puxei e a vela veio suavemente sobre minha cabeça. Foram apenas alguns passos e eu tinha entrado em voo. Eu consegui! Decolei do Monte Kilimanjaro! Foi uma sensação indescritível: uma mistura de euforia com contemplação. Eu ria e chorava ao mesmo tempo!

O voo foi um “prego” de pouco mais de uma hora. No pouso, estavam nos esperando Linda Willemse e Joana Garcia, minha noiva, que tinha subido conosco até o acampamento 3, mas precisou descer devido a um mal-estar ocasionado pela altitude. Quando pousei, tive uma das sensações mais loucas que já senti no voo. Parecia que eu tinha atravessado um portal. Não sentia cansaço nem frio. Não havia nenhum indício de que, há apenas uma hora, eu estava passando pela situação mais extrema que já havia vivido. O cume parecia algo distante, e o sofrimento, coisa de uma vida passada. Conversei com os Rafas e os dois estavam sentindo a mesma coisa. Que bom – assim tínhamos mais energia para comemorar!
Esse feito, da forma como aconteceu, nunca sairá das nossas cabeças e dos nossos corações. Nós fomos os primeiros brasileiros a subir e decolar do cume do Monte Kilimanjaro: O TOPO DA ÁFRICA!
