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Voar próximo às nuvens é uma das experiências mais fascinantes do parapente e da asa-delta. Ao mesmo tempo, é uma das situações que mais exige leitura de condições, disciplina operacional e tomada de decisão consciente. Quando essa leitura falha, o risco de cloud suck aumenta de forma significativa.
Cloud suck é o fenômeno em que uma térmica, intensificada pela formação de uma nuvem, passa a gerar um fluxo ascendente tão forte que o piloto não consegue mais descer, mesmo utilizando técnicas de perda de altitude. Em casos extremos, o piloto pode ser levado involuntariamente para dentro da nuvem, com perda de referências visuais, possível formação de gelo, turbulência severa e risco de conflito com outras aeronaves.
Por isso, a melhor estratégia contra cloud suck é sempre a prevenção. Evitar chegar a esse cenário é muito mais seguro do que tentar sair dele.
À medida que uma térmica se aproxima da base de uma nuvem em formação, ocorre liberação de calor latente devido à condensação da umidade. Esse processo reforça a sustentação da massa de ar, fazendo com que a corrente ascendente se intensifique e se amplie.
O resultado é uma coluna de ar muito mais forte, larga e persistente do que uma térmica comum. Dependendo das condições atmosféricas, a taxa de subida pode facilmente ultrapassar a capacidade de descida de um parapente ou de uma asa-delta, mesmo utilizando técnicas de perda de altitude.
Esse efeito tende a ser mais pronunciado em dias instáveis, com cúmulos bem desenvolvidos, crescimento rápido de nuvens e base relativamente baixa.
Uma forma simples e extremamente eficaz de avaliar o risco de cloud suck é a Regra dos 45 graus, difundida pelo piloto e instrutor Kelly Farina.
A regra utiliza apenas percepção visual e uma referência geométrica básica para ajudar o piloto a avaliar se ainda existe margem segura para continuar subindo naquela área.
Funciona assim:
Imagine uma linha horizontal partindo do seu campo de visão, representando o seu horizonte.
Observe a borda mais próxima da nuvem, normalmente a base ou a lateral visível.
Trace mentalmente uma linha entre você e essa borda.
Se o ângulo formado entre essa linha e o horizonte for menor que aproximadamente 45 graus, isso indica que você já está muito próximo da nuvem e que sua margem de escape lateral está reduzida.
Nessa situação, a recomendação é abandonar a térmica e voar em direção ao céu azul, em vez de continuar subindo.
Se o ângulo ainda for maior que 45 graus, existe mais separação lateral e maior espaço para manobra, embora isso não elimine a necessidade de leitura constante das condições e da evolução da nuvem.
A Regra dos 45 graus não é uma medida exata, mas sim um gatilho visual rápido para tomada de decisão, especialmente útil quando a subida começa a acelerar e a proximidade da nuvem aumenta.

Avalie cuidadosamente a previsão meteorológica, a instabilidade atmosférica, a presença de convecção e o potencial de desenvolvimento vertical das nuvens. Dias com cúmulos grandes, crescimento rápido ou cobertura extensa exigem cautela adicional.
Importante: em dias de superdesenvolvimento de nuvens, com crescimento vertical intenso, bases baixas, formação rápida de cúmulos congestus ou tendência a tempestades, a regra é simples: não decolar.
Não existe forma segura de operar o voo livre em condições desse tipo. Nenhuma técnica em voo substitui uma decisão correta no solo.
Sempre que possível, trabalhe térmicas mais afastadas da projeção direta da nuvem. Voar nas bordas oferece mais opções de saída lateral e reduz o risco de ficar preso sob a área de maior sustentação.
Antes de engajar uma térmica forte, tenha claro para onde você pode escapar lateralmente caso a sustentação aumente de forma inesperada. Evite posicionamentos que limitem suas opções de deslocamento para o céu aberto.
Se a geometria visual da nuvem indicar redução de margem, ou se a taxa de subida começar a aumentar rapidamente, abandone a térmica. Não espere que a situação se torne crítica para tomar a decisão.
Manter uma área clara de céu entre você e a nuvem aumenta sua margem de segurança, facilita a leitura do ambiente e reduz a probabilidade de entrar em zonas de forte sucção.
A prioridade absoluta é sair lateralmente da região de maior sustentação, voando de forma consistente em direção ao céu aberto.
Utilize acelerador e técnicas básicas de aumento de taxa de descida, desde que treinadas.
Evite permanecer girando diretamente sob a nuvem, o que tende a mantê-lo dentro da área de maior subida.
Caso a visibilidade comece a reduzir, mantenha rumo constante e utilize seus instrumentos para manter orientação.
Situações extremas exigem treinamento específico e não devem fazer parte da operação normal do voo recreativo ou competitivo.
A maioria dos incidentes relacionados a cloud suck não ocorre por falta de habilidade técnica, mas por atraso na tomada de decisão, excesso de confiança ou leitura inadequada da evolução das nuvens.
Voo seguro é resultado de escolhas feitas antes do problema aparecer. Ler corretamente o dia, respeitar os limites atmosféricos e preservar margens operacionais são atitudes que mantêm o voo dentro de níveis controláveis e previsíveis.
Bons voos, sempre com consciência, margem e responsabilidade.
Fonte e crédito da foto: Kelly Farina