Cloud Suck: como evitar ser sugado para dentro da nuvem no voo livre

14 de janeiro de 2026 - Por Lucas Axelrud

Voar próximo às nuvens é uma das experiências mais fascinantes do parapente e da asa-delta. Ao mesmo tempo, é uma das situações que mais exige leitura de condições, disciplina operacional e tomada de decisão consciente. Quando essa leitura falha, o risco de cloud suck aumenta de forma significativa.

Cloud suck é o fenômeno em que uma térmica, intensificada pela formação de uma nuvem, passa a gerar um fluxo ascendente tão forte que o piloto não consegue mais descer, mesmo utilizando técnicas de perda de altitude. Em casos extremos, o piloto pode ser levado involuntariamente para dentro da nuvem, com perda de referências visuais, possível formação de gelo, turbulência severa e risco de conflito com outras aeronaves.

Por isso, a melhor estratégia contra cloud suck é sempre a prevenção. Evitar chegar a esse cenário é muito mais seguro do que tentar sair dele.


Por que o cloud suck acontece?

À medida que uma térmica se aproxima da base de uma nuvem em formação, ocorre liberação de calor latente devido à condensação da umidade. Esse processo reforça a sustentação da massa de ar, fazendo com que a corrente ascendente se intensifique e se amplie.

O resultado é uma coluna de ar muito mais forte, larga e persistente do que uma térmica comum. Dependendo das condições atmosféricas, a taxa de subida pode facilmente ultrapassar a capacidade de descida de um parapente ou de uma asa-delta, mesmo utilizando técnicas de perda de altitude.

Esse efeito tende a ser mais pronunciado em dias instáveis, com cúmulos bem desenvolvidos, crescimento rápido de nuvens e base relativamente baixa.


A Regra dos 45 Graus (Kelly Farina)

Uma forma simples e extremamente eficaz de avaliar o risco de cloud suck é a Regra dos 45 graus, difundida pelo piloto e instrutor Kelly Farina.

A regra utiliza apenas percepção visual e uma referência geométrica básica para ajudar o piloto a avaliar se ainda existe margem segura para continuar subindo naquela área.

Funciona assim:

  • Imagine uma linha horizontal partindo do seu campo de visão, representando o seu horizonte.

  • Observe a borda mais próxima da nuvem, normalmente a base ou a lateral visível.

  • Trace mentalmente uma linha entre você e essa borda.

Se o ângulo formado entre essa linha e o horizonte for menor que aproximadamente 45 graus, isso indica que você já está muito próximo da nuvem e que sua margem de escape lateral está reduzida.

Nessa situação, a recomendação é abandonar a térmica e voar em direção ao céu azul, em vez de continuar subindo.

Se o ângulo ainda for maior que 45 graus, existe mais separação lateral e maior espaço para manobra, embora isso não elimine a necessidade de leitura constante das condições e da evolução da nuvem.

A Regra dos 45 graus não é uma medida exata, mas sim um gatilho visual rápido para tomada de decisão, especialmente útil quando a subida começa a acelerar e a proximidade da nuvem aumenta.


Boas práticas para evitar cloud suck

1. Leia o dia antes de decolar

Avalie cuidadosamente a previsão meteorológica, a instabilidade atmosférica, a presença de convecção e o potencial de desenvolvimento vertical das nuvens. Dias com cúmulos grandes, crescimento rápido ou cobertura extensa exigem cautela adicional.

Importante: em dias de superdesenvolvimento de nuvens, com crescimento vertical intenso, bases baixas, formação rápida de cúmulos congestus ou tendência a tempestades, a regra é simples: não decolar.
Não existe forma segura de operar o voo livre em condições desse tipo. Nenhuma técnica em voo substitui uma decisão correta no solo.

2. Evite subir diretamente sob a base da nuvem

Sempre que possível, trabalhe térmicas mais afastadas da projeção direta da nuvem. Voar nas bordas oferece mais opções de saída lateral e reduz o risco de ficar preso sob a área de maior sustentação.

3. Mantenha uma rota de fuga mental

Antes de engajar uma térmica forte, tenha claro para onde você pode escapar lateralmente caso a sustentação aumente de forma inesperada. Evite posicionamentos que limitem suas opções de deslocamento para o céu aberto.

4. Use critérios claros como gatilho de saída

Se a geometria visual da nuvem indicar redução de margem, ou se a taxa de subida começar a aumentar rapidamente, abandone a térmica. Não espere que a situação se torne crítica para tomar a decisão.

5. Preserve sempre espaço de céu azul

Manter uma área clara de céu entre você e a nuvem aumenta sua margem de segurança, facilita a leitura do ambiente e reduz a probabilidade de entrar em zonas de forte sucção.


E se, mesmo assim, você começar a ser sugado?

A prioridade absoluta é sair lateralmente da região de maior sustentação, voando de forma consistente em direção ao céu aberto.

  • Utilize acelerador e técnicas básicas de aumento de taxa de descida, desde que treinadas.

  • Evite permanecer girando diretamente sob a nuvem, o que tende a mantê-lo dentro da área de maior subida.

  • Caso a visibilidade comece a reduzir, mantenha rumo constante e utilize seus instrumentos para manter orientação.

Situações extremas exigem treinamento específico e não devem fazer parte da operação normal do voo recreativo ou competitivo.


Segurança é decisão antecipada

A maioria dos incidentes relacionados a cloud suck não ocorre por falta de habilidade técnica, mas por atraso na tomada de decisão, excesso de confiança ou leitura inadequada da evolução das nuvens.

Voo seguro é resultado de escolhas feitas antes do problema aparecer. Ler corretamente o dia, respeitar os limites atmosféricos e preservar margens operacionais são atitudes que mantêm o voo dentro de níveis controláveis e previsíveis.

Bons voos, sempre com consciência, margem e responsabilidade.

Fonte e crédito da foto: Kelly Farina

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