Gabriel Seraphim voa 315,3 km e estabelece novo recorde da Rampa do Vale do Paranã

22 de setembro de 2026 - Por Lucas Axelrud

Piloto de Brasília permaneceu mais de oito horas no ar, enfrentou vento forte, trechos sem pouso, queimadas e momentos a poucos metros do chão para completar 315,3 km em linha reta e 327,9 km OLC

Gabriel Seraphim estabeleceu uma nova marca na Rampa do Vale do Paranã, na região de Formosa, com um voo de 315,3 km em distância livre e 327,9 km OLC no dia 19 de setembro de 2026. Foram mais de oito horas de voo, entre a decolagem às 9h30 e o pouso às 17h49, em um dia que esteve longe de oferecer um caminho fácil para os 300 quilômetros.

Gabriel saiu da rampa já com um objetivo definido. Queria passar dos 300 km. Caso percebesse ao longo da rota que a marca não seria possível, o plano era pousar próximo a alguma cidade e antecipar o retorno para casa. A decisão de continuar, porém, precisou ser renovada diversas vezes durante as primeiras horas.

O próprio piloto resume a estratégia usada naquele dia em uma palavra:

“Persistência, muita persistência. Pensei em desistir várias vezes, mas a possibilidade de voar acima de 300 km me motivava.”

E houve motivos suficientes para considerar o pouso.

Um começo lento e técnico na Serra do Maranhão

Quando Gabriel decolou, às 9h30, nuvens já começavam a se formar na região da rampa. O problema era justamente a direção para onde precisava seguir. Atrás da decolagem, na rota do voo, predominava o céu azul.

O vento também soprava forte durante a manhã. Na Serra do Maranhão, Gabriel conseguia trabalhar alturas entre aproximadamente 1.000 e 1.400 metros acima do solo, pouco para enfrentar com margem confortável uma área que ele considera uma das partes mais delicadas dos grandes voos a partir do Paranã.

Segundo Gabriel, entender essa geografia é fundamental para compreender a dificuldade da marca.

“A Rampa do Paranã tem boa condição de voo durante a seca, mas é um local com várias dificuldades para o voo de distância. O relevo logo atrás da rampa fica na mesma altura e a saída normalmente se dá com teto bem baixo.”

Depois da saída, surge outro obstáculo: a Serra do Maranhão. Gabriel estima que ela tenha cerca de 70 quilômetros de comprimento e aproximadamente 40 quilômetros no sentido em que os pilotos precisam atravessá-la.

É uma região de morros, poucas estradas e escassas possibilidades de pouso.

“É difícil atravessar a serra e diria que até perigoso com vento forte.”

O voo avançava lentamente. Gabriel seguia inicialmente na direção da parte central da serra, mas não estava confortável com o que encontrava. Havia vento forte, céu sem nuvens, turbulência e térmicas irregulares. Além disso, as ascendentes não permitiam que ele alcançasse a altura esperada.

A solução foi abandonar momentaneamente uma linha mais direta e deslocar-se lateralmente em busca de uma área onde sabia existir ao menos uma possibilidade de pouso.

Foi justamente ali que o voo quase terminou.

Gabriel chegou a aproximadamente 100 metros do chão e teve dificuldade para encontrar uma térmica capaz de tirá-lo da situação. Quando finalmente conseguiu uma ascendente melhor, voltou a derivar para cima da região mais complicada da serra.

“Pensei várias vezes em desistir do voo, mas primeiro tinha que sair da serra.”

O resultado dessa batalha aparece também nos números. Foram quase três horas para percorrer os primeiros 70 quilômetros.

Somente depois de superar a Serra do Maranhão o cenário começou a mudar.

Passada a serra, os 300 km voltaram ao jogo

Ao deixar o trecho mais crítico para trás, Gabriel passou a encontrar vento de cauda. Começou então a calcular distância, horário e velocidade possível para o restante do dia.

Os primeiros 70 quilômetros haviam consumido boa parte da manhã, mas a nova configuração ainda deixava aberta uma possibilidade.

“A partir daí comecei a voar com vento de cauda e calculei que seria possível tentar os 300 km. Decidi continuar.”

Gabriel acompanhou durante todo o voo a distância percorrida. Depois de atravessar a Serra do Maranhão, já sabia que alcançar a marca era possível.

A condição, no entanto, ainda não havia se tornado simples.

O teto ganhou aproximadamente 400 metros, mas as térmicas continuavam turbulentas e cisalhadas, com diferentes direções de vento. Mesmo nas ascendentes, Gabriel encontrava dificuldade para chegar à base.

Em outro trecho de serra, normalmente considerado mais fácil, voltou a enfrentar uma situação complicada. Sem boas alternativas, precisou avançar relativamente baixo para uma área tomada por uma grande queimada.

A escolha era desconfortável, mas seguir era a opção disponível.

“Era subir ou cair numa roubada no meio da queimada. Deu certo!”

Depois das 13h, finalmente um céu mais favorável

A mudança mais significativa aconteceu depois das 13h.

As nuvens apareceram com maior consistência, as térmicas ficaram mais organizadas e o teto chegou a aproximadamente 3.600 metros acima do nível do mar.

Depois de uma manhã marcada pela sobrevivência e pelo avanço lento, era a primeira vez que Gabriel encontrava uma condição compatível com as grandes distâncias que buscava.

Nem por isso os sustos haviam acabado.

Ao atravessar outro trecho de céu azul, o piloto perdeu novamente muita altura. Desta vez chegou a cerca de 50 metros do chão.

Gabriel precisou insistir, indo e voltando na região em busca de alguma ascendência que permitisse continuar. Foi quando alguns urubus deram a indicação que faltava.

“Tive que lutar indo e voltando até alguns urubus me ajudarem a encontrar uma térmica que me permitisse derivar sobre plantações de cana altas, sem pouso.”

Foram cerca de 20 minutos tentando sair daquela posição.

Quando finalmente conectou a térmica, conseguiu subir até a base.

“Perdi uns 20 minutos nessa batalha, mas valeu a pena. Subi até a base!”

Com altura novamente, o voo voltou a ganhar ritmo.

Outra queimada e um planeio final de 50 quilômetros

A parte final ainda reservava mais uma decisão de risco.

Gabriel se colocou baixo próximo a outra grande área de queimada. Mais uma vez, havia pouca margem para erro e uma extensa região sem opções confortáveis de pouso logo adiante.

Ele descreve a decisão de forma direta:

“50%/50% outra vez.”

A aposta funcionou. A ascendente produzida naquela região levou Gabriel novamente até a base e abriu caminho para o que seria o último grande movimento do voo.

Dali, iniciou um planeio final de aproximadamente 50 quilômetros.

O pouso aconteceu às 17h49. A distância livre registrada foi de 315,3 km, com 327,9 km OLC.

Curiosamente, Gabriel esperava terminar um pouco antes.

“A distância final superou minha expectativa. Imaginava que daria uns 300, 305 km.”

Depois de um começo no qual levou quase três horas para percorrer 70 quilômetros e de passar duas vezes muito próximo do chão, a barreira dos 300 km não apenas caiu como foi superada com margem.

E Gabriel pousou ainda com a sensação de que o dia poderia render mais:

“Pousei às 17h49 querendo mais.”

“O voo de 300 km mais difícil que já fiz na minha região”

Gabriel conhece bem os grandes voos no Planalto Central. Sua avaliação sobre o dia ajuda a dimensionar o resultado.

“Esse foi, sem dúvida, o voo de 300 km mais difícil que já fiz na minha região.”

A dificuldade também está ligada às particularidades da própria Rampa do Vale do Paranã.

Durante a estação seca, a região pode apresentar condições muito fortes e potencial para grandes distâncias. Ao mesmo tempo, a saída baixa, as serras, os trechos sem pouso e as chamadas “roubadas” tornam a rota bastante técnica.

“A Rampa do Vale do Paranã é um local incrível para voar. Na estação seca a condição é forte e permite excelentes voos. Contudo, são voos bastante técnicos, com uma saída da rampa normalmente difícil e algumas roubadas grandes nas rotas dos voos de distância.”

Gabriel acredita que os 315 km estão longe de representar o limite do local.

Para ele, um voo de 400 km é possível a partir do Vale do Paranã. A dificuldade está em encontrar o dia certo.

“Creio que seja possível voar 400 km de lá. Mas são poucos os dias que permitem esse voo. Diria que há um ou dois dias no ano que oferecem essa possibilidade. Alguns anos esses dias são inexistentes.”

Um sonho antigo na rampa onde aprendeu a voar

A nova marca tem ainda um significado particular para Gabriel.

A menos de 40 quilômetros do Vale do Paranã existe outra rampa onde ele já realizou voos acima de 300 km. Foi de lá que saiu seu voo de 325 km, atual recorde do Centro-Oeste, segundo o piloto.

Essa segunda rampa apresenta algumas vantagens para a distância. A saída é mais simples e a rota atravessa uma parte menos complexa da Serra do Maranhão.

O Vale do Paranã, porém, tem outro peso em sua trajetória.

Foi ali que Gabriel aprendeu a voar.

Antes do voo de 19 de setembro, sua melhor marca saindo daquela rampa era de 248 km. Ultrapassar os 300 km justamente naquele local era um objetivo antigo.

“Aprendi a voar na clássica Rampa do Vale do Paranã. Essa marca realizada de lá representa um sonho de anos e a confirmação de que há potencial para voar ainda mais distante na nossa região.”

Quase 20 anos dedicados ao cross-country

Natural de Brasília, Distrito Federal, Gabriel completa no fim de 2026 duas décadas no voo livre.

E o cross-country esteve presente praticamente desde o início.

“Aqui em Brasília a tradição de voos de cross-country é muito forte. Me dedico aos voos de distância desde que aprendi a voar.”

Seu sítio de voo mais frequente continua sendo justamente o Vale do Paranã. Entre as rotas que mais gosta de fazer está a clássica ligação em direção a Brasília.

Nos últimos meses, porém, Gabriel também passou a trabalhar para ampliar as possibilidades de voo na região. Somente neste ano, afirma ter aberto três novas rampas e estar trabalhando na abertura de outras duas.

“Quero ampliar nossas possibilidades de voo.”

Esse trabalho continuou literalmente no dia seguinte ao recorde.

Depois de resgatar Gabriel após o voo de mais de oito horas, seu amigo Binho topou dormir apenas duas horas para acompanhá-lo até Alvorada do Norte, onde Gabriel havia aberto uma nova rampa e pretendia voar novamente.

O piloto fez questão de deixar registrado o agradecimento.

“Agradeço ao meu grande amigo Binho, que fez meu resgate e ainda topou dormir somente duas horas para me levar para voar numa rampa nova que abri em Alvorada do Norte no dia seguinte.”

O próximo sonho é muito maior

Os 315,3 km do Vale do Paranã acrescentam uma nova marca à trajetória de um piloto que já conhece voos acima dos 300 km e que continua olhando para distâncias maiores.

A meta de longo prazo não é modesta.

“Ainda sonho em alcançar o recorde mundial em terras brasileiras.”

Se depender do trabalho de exploração de novas rampas e da disposição demonstrada no voo de 19 de setembro, a busca continuará.

No Vale do Paranã, o resultado já deixou uma referência clara: mesmo em um dia que começou lento, turbulento e com sucessivas possibilidades de pouso, Gabriel Seraphim conseguiu transformar persistência em 315,3 quilômetros de distância livre, 327,9 quilômetros OLC e uma nova marca para uma das rampas mais tradicionais de sua história no voo livre.

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