Flyable: tecnologia brasileira aplicada à meteorologia do voo livre

Uma plataforma criada por piloto para piloto.

06 de outubro de 2026 - Por Fernando Brandalize (Zoio)

Quando a tecnologia nasce de uma necessidade do próprio piloto

Antes de praticamente todo voo existe uma rotina conhecida por quem pratica parapente ou asa-delta: analisar vento, rajadas, cobertura de nuvens, precipitação, teto, térmicas e tentar entender qual será a melhor janela do dia.

Para fazer isso, muitas vezes o piloto precisa consultar diferentes plataformas e comparar vários modelos meteorológicos antes de chegar a uma conclusão.

Foi justamente dessa necessidade que surgiu o Flyable, plataforma brasileira desenvolvida por Jesse Di Giacomo e pensada especificamente para o voo livre.

Mais do que simplesmente apresentar previsões meteorológicas, a proposta da ferramenta é reunir diferentes modelos, comparar seus resultados, identificar convergências e divergências e transformar uma grande quantidade de dados em informações mais simples para a tomada de decisão do piloto.

O projeto também se conecta a um movimento que vem crescendo dentro do voo livre brasileiro: pilotos e desenvolvedores nacionais utilizando tecnologia para criar novas soluções para necessidades encontradas dentro do próprio esporte.

Para entender melhor como nasceu o Flyable e como funciona essa tecnologia, conversamos com Jesse Di Giacomo.

Página inicial do Flyable, plataforma criada para entregar ao piloto uma leitura mais clara e prática das condições meteorológicas para voo livre.

De uma pergunta simples nasceu o projeto

A relação de Jesse com a meteorologia começou ainda durante sua formação como piloto.

Fascinado por física, desde as primeiras aulas do curso de parapente passou a estudar com profundidade a atmosfera e a micrometeorologia.

Ao mesmo tempo, como acontece com muitos pilotos, precisava conciliar o voo com sua rotina profissional. Isso tornava cada oportunidade de voar ainda mais importante.

Segundo ele, muito tempo era dedicado à análise manual de diferentes modelos meteorológicos, tentando identificar padrões locais e entender qual previsão costumava funcionar melhor para cada direção de vento.

O objetivo era evitar perder justamente os poucos dias disponíveis para voar.

“Gastava muito tempo analisando múltiplos modelos, identificando padrões locais e entendendo qual previsão seria mais assertiva para cada quadrante, evitando perder dias de folga com previsões erradas ou condições sem decolagem.”

Com o passar dos anos, até o tempo gasto fazendo essas análises começou a pesar na rotina.

Foi então que surgiu a ideia de automatizar o processo.

A pergunta que precisava ser respondida inicialmente era bastante simples:

“Vai dar para espremer ao menos um voozinho local hoje? Em qual melhor horário?”

A primeira automação funcionou tão bem para sua própria necessidade que recebeu inclusive um nome informal: “Senhor do Tempo”.

Mas quando Jesse começou a preparar uma nova análise para outra rampa, onde pretendia voar com um amigo, percebeu que poderia transformar aquela solução pessoal em algo muito maior.

“Percebi que o ideal seria generalizar a análise para todos os sítios de voo.”

A partir daí começou a nascer o Flyable.

Quando encontrou uma nova janela para se dedicar ao desenvolvimento, decidiu transformar aquela ferramenta interna em uma plataforma aberta para a comunidade.

“Decidi compartilhar a ferramenta com a comunidade da forma mais acessível possível, pois realmente acredito que ela possa transformar o dia a dia dos pilotos.”

Comparar modelos para entender a incerteza

Prever o comportamento da atmosfera nunca é uma tarefa simples.

Diversas variáveis interagem ao mesmo tempo e cada modelo meteorológico pode apresentar comportamentos diferentes dependendo da região, resolução e tipo de previsão.

Por isso, um dos principais conceitos do Flyable é justamente não depender de apenas uma previsão.

Segundo Jesse, a plataforma processa diferentes modelos meteorológicos disponíveis para a região analisada.

No Brasil, são aproximadamente dez modelos utilizados na comparação, incluindo referências amplamente utilizadas na meteorologia, como ICON e ECMWF.

Mas o objetivo não é simplesmente colocar várias previsões lado a lado.

O sistema procura identificar onde elas concordam e onde existe divergência.

“O grande diferencial da plataforma não é apenas plotar números na tela, mas identificar o consenso e as divergências entre eles.”

Quando vários modelos apontam condições semelhantes de direção do vento, intensidade ou teto, a previsão ganha maior consistência.

Por outro lado, quando existe grande diferença entre os modelos em algum parâmetro importante, o próprio sistema procura destacar essa incerteza.

“Se há divergência acentuada em algum parâmetro crítico, o Flyable destaca onde está a incerteza.”

Para o piloto, isso significa reduzir a necessidade de abrir diversas plataformas e fazer manualmente todas essas comparações.

Uma ferramenta criada especificamente para o voo livre

Desde o início, o Flyable foi desenvolvido pensando diretamente nas necessidades de pilotos de parapente e asa-delta.

A primeira versão buscava responder principalmente algumas perguntas básicas:

  • Vai chover?

  • Qual será a cobertura e a base das nuvens?

  • Qual será a direção do vento na rampa?

  • Existirão rajadas?

  • Qual será a melhor hora para voar?

Mas conforme a plataforma foi sendo utilizada e validada na prática, a análise começou a ficar mais completa.

Hoje, segundo Jesse, o sistema também considera informações importantes para compreender melhor a qualidade da condição.

  • perfil do vento em diferentes camadas da atmosfera;

  • gradientes de vento em altitude;

  • inversão térmica e seu impacto sobre o teto;

  • condição e intensidade térmica esperada ao longo do ciclo solar;

  • cisalhamento do vento;

  • turbulência mecânica;

  • organização ou possível fragmentação das térmicas.

Esses dados permitem ao piloto não apenas avaliar se existe possibilidade de voo, mas também tentar compreender melhor qual tipo de condição encontrará.

“Todas essas informações são fundamentais para que o piloto planeje exatamente o tipo de treino ou voo que deseja realizar naquele dia.”

Transformando dados complexos em informação simples

Meteorologia possui uma enorme quantidade de informação disponível.

O desafio não é apenas acessar esses dados. É conseguir interpretá-los.

Por isso, uma das principais propostas do Flyable é reduzir a complexidade da análise.

“O objetivo principal do Flyable é eliminar o ruído e entregar informação clara e prática.”

Em vez de exigir que o piloto interprete diversas tabelas, gráficos ou diagramas meteorológicos, a plataforma realiza internamente parte desse trabalho.

Segundo Jesse, existe um fluxo de engenharia e ciência de dados que envolve coleta de informações, mineração, harmonização entre diferentes fontes e cruzamento dos dados meteorológicos com características da topografia e do próprio sítio de voo.

O resultado é apresentado através de indicadores mais simples.

Entre as informações que o piloto consegue visualizar estão:

  • melhor janela prevista para o voo;

  • comportamento e consistência do vento ao longo do dia;

  • comparação entre diferentes modelos;

  • possíveis divergências entre as previsões;

  • índice de confiança da previsão.

“O piloto bate o olho e enxerga com clareza: a melhor janela de voo, a consistência dos ventos ao longo das horas e o índice de confiança da previsão para aquele dia.”

O Flyable apresenta sua metodologia em três fases: mapeamento da rampa e relevo, cruzamento inteligente de previsões e entrega de um veredito claro com janela de voo.

A plataforma funciona, portanto, como uma ferramenta de apoio à análise.

Como qualquer previsão meteorológica, os dados não substituem a avaliação do piloto, a observação das condições locais e a tomada de decisão em campo.

Desenvolvimento guiado pelos próprios pilotos

Assim como acontece com grande parte das ferramentas digitais atuais, o Flyable continua em desenvolvimento.

E uma das principais fontes de evolução da plataforma tem sido justamente o retorno dos próprios usuários.

O sistema possui um canal direto para sugestões, avaliações e relatos de problemas.

Segundo Jesse, algumas dessas contribuições já começaram a influenciar diretamente o desenvolvimento.

Um exemplo veio dos pilotos de Asa-Delta.

“Os pilotos de Asa-Delta forneceram feedbacks valiosos que já estão sendo incorporados para contemplar com precisão as particularidades da modalidade.”

A ideia é que novas funções sejam adicionadas conforme o uso da plataforma aumenta e novas necessidades apareçam.

Entre os recursos já estudados estão as consultas programadas com alertas inteligentes de voo.

A proposta seria permitir que o próprio sistema acompanhasse determinadas condições e avisasse o piloto quando surgisse uma janela interessante para voar.

A seção de perguntas frequentes do Flyable ajuda o piloto a entender melhor como o sistema funciona e como a plataforma interpreta as condições da rampa.

Tecnologia brasileira dentro do voo livre

O Flyable também faz parte de um cenário cada vez mais interessante dentro do esporte brasileiro.

Nos últimos anos, diversos pilotos que também trabalham com tecnologia começaram a desenvolver sistemas, aplicativos e plataformas voltados especificamente às necessidades do voo livre.

São ferramentas desenvolvidas por pessoas que conhecem a realidade do esporte porque também estão dentro dele.

Para Jesse, o Brasil possui capacidade técnica para ocupar cada vez mais espaço nesse desenvolvimento.

“O Brasil há muitos anos exporta grandes profissionais em diversas áreas. Desenvolvemos e exportamos tecnologia de ponta para todo o mundo. Somos referência global em tecnologia e já passou da hora do mesmo ocorrer nas ferramentas que envolvem o voo livre.”

O desenvolvimento do Flyable também acabou aproximando Jesse de outros pilotos brasileiros ligados à programação e à tecnologia.

“Recentemente tive a honra de me conectar com diversos pilotos brasileiros que também são desenvolvedores e estão criando soluções incríveis para o nosso esporte.”

Essa conexão talvez seja justamente um dos pontos mais interessantes dessa nova fase.

Diferentes projetos começam a surgir de necessidades reais encontradas dentro do voo livre, criando possibilidades para novas integrações e ferramentas cada vez mais específicas para pilotos, organizadores e competições.

Jesse resume essa visão através de um princípio simples:

“Sou porque somos.”

E completa:

“Quando unimos forças, o esporte evolui como um todo: somos mais fortes e vamos muito mais longe.”

Tecnologia criada por quem também voa

O Flyable nasceu para responder uma pergunta cotidiana de um piloto tentando aproveitar melhor suas oportunidades de voo.

Com o tempo, a solução pessoal transformou-se em uma plataforma capaz de analisar diferentes modelos meteorológicos e apresentar essas informações de maneira direcionada ao voo livre.

Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes do atual movimento tecnológico brasileiro dentro do esporte.

Muitas das novas ferramentas não começam dentro de grandes empresas.

Elas surgem na rampa, durante uma competição, na análise de um voo ou na tentativa de resolver algum problema que faz parte da rotina dos próprios pilotos.

E quando conhecimento técnico, experiência prática e colaboração da comunidade se encontram, novas soluções começam a aparecer.

O Flyable é mais um exemplo dessa tecnologia brasileira sendo desenvolvida de dentro do voo livre para o próprio voo livre.

Conheça o Flyable e fale com Jesse Di Giacomo

Site

Flyable.com.br

Instagram de Jesse

@jessedigiacomo

Instagram do Flyable

@Flyable.com.br

E-mail

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Fernando “Zoio” Brandalize
Diretor Executivo de Competições – CBVL

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