Pepê: 30 anos de saudade

Há três décadas perdíamos um dos maiores nomes do voo livre - relembre sua incrível trajetória

05 de abril de 2021 - Por Guilherme Augusto

Hoje lembramos os 30 anos de ausência de Pedro Paulo Guise Carneiro Lopes, um dos maiores nomes do esporte radical brasileiro. Além de dono de uma incomparável vocação esportiva e personalidade cativante, Pepê possui um título que até hoje nenhum brasileiro conseguiu repetir: foi campeão Mundial de Voo Livre.

Relembraremos aqui sua história, como uma justa homenagem, para que ela jamais seja esquecida. Entenda porque Pepê, mesmo com uma carreira tão breve, até hoje é cultuado como um dos principais esportistas que já vestiram a camisa verde e amarela.

Pepê, campeão mundial de voo livre e multicampeão em diferentes esportes, nos deixava há 30 anos

Pepê nasceu para ser campeão

Pepê nasceu no Rio de Janeiro, em setembro de 1957, e desde pequeno mostrou naturalidade com esportes. Praticou artes marciais, como judô, e também natação. Mas foi no hipismo que vieram os primeiros troféus. Foi, por exemplo, campeão Carioca de Hipismo Mirim e bronze no Brasileiro de Hipismo, em 1971.

Alguns acontecimentos negativos, como a morte de sua égua, lhe levaram à uma pausa na modalidade. Era hora de desbravar um novo esporte, em franca ascensão nas praias brasileiras. O surfe.

Pepê aprendeu a surfar nos anos 1970 e logo levaria o Brasil ao topo da elite mundial

Aprendeu a surfar no início dos anos 1970, no Pier de Ipanema e no Arpoador, e logo tornou-se competitivo. Faturou títulos como o de campeão Júnior de Surf e também de campeão Brasileiro em 1975/76. Ainda, tornou-se o primeiro brasileiro a faturar uma etapa do Mundial, durante o Waimea 5000, em 76, no Rio.

No mesmo ano, chegou à final do Pipeline, no Havaí - onde só voltaríamos a ter representante em 2014, com Gabriel Medina. Além disso, figurou entre os 20 melhores surfistas do mundo por vários anos.

O melhor piloto de asa do mundo

Em 1978 o carioca teve contato com um novo esporte que estava decolando no país, a asa delta. “Estimulados por amigos do surfe e da vela, conhecemos o voo livre e aprendemos a voar praticamente juntos, ele com André Sansoldo e eu com Dado Cartolano. A partir daí não paramos mais”, relembra o amigo - e hoje instrutor de voo - Miguel Tavares.

Conquista do Mundial veio em 1981, no Japão. Até hoje, nenhum outro brasileiro repetiu a façanha

Rapidamente, Pepê mostrou talento também no voo livre. Tanta naturalidade, aliás, a ponto de faturar o troféu de campeão Brasileiro já em 1980. No ano seguinte viria a maior conquista da carreira, o título de Campeão Mundial. O feito, ainda não repetido por nenhum brasileiro, foi obtido no Japão, na cidade de Beppu.

"Pepê era extramemente competitivo, determinado, disputava as térmicas até o chão. Quando voava com a bandeira do Brasil o cara enfrentava tudo, tempestade e o que mais tivesse, não tinha medo de nada e ninguém", lembra o amigo Pedro Matos. Os dois voaram juntos desde o início dos anos 1980 e integraram a Seleção Brasileira em diferentes mundiais, como o de 1988, na Austrália, e o de Governador Valadares, em 1991.

 "Cara, são muitas histórias. Na Suíça nós colocamos para dentro de uma geleira e todos falando no rádio 'vai dar sim, já estamos indo!'. Entramos eu, ele e Paulinho. Era uma coisa de louco". Para o colega e amigo, só faltou um título ao carioca. "Ele queria demais o Mundial por equipes. Em 1991 tínhamos uma equipe de ouro com nós dois, Paulinho e Felipe, e chegamos a liderar aqui em Valadares, mas acabamos perdendo o troféu nos últimos dias. Ele ficou muito triste, mas não desistiu".

Logo depois, ainda em 1991, Pepê representou o país integrando a Seleção Brasileira novamente. O Torneio Internacional de Voo Livre aconteceu mais uma vez no Japão, mas agora na cidade de Wakayama, distante 600 km de Tóquio, numa região montanhosa.

Acidente fatal ocorreu no mesmo Japão que o coroou. Anos depois nossa seleção viveria outro grande momento: a conquista do títulos por equipes, na Itália, em 1999

Apesar das condições climáticas adversas e dos pedidos de pilotos pelo cancelamento das decolagens, no dia 5 de abril a organização insistiu em manter a realização das provas. Pepê voava em direção à cidade de Kushimoto quando perdeu o controle de sua asa e acabou colidindo contra pedras ao tentar uma aterrissagem de emergência.

O brasileiro foi encontrado pela equipe de resgate, que usava um helicóptero, cerca de duas horas depois e não resistiu aos ferimentos. Mesmo assim, foi vice-campeão Mundial na ocasião. Pepê tinha 33 anos.

Pepê além do pódio

Como se o sucesso em diferentes - e quase opostos - esportes não bastasse, Pepê ainda teve uma vida agitada em outras áreas. Músico, gravou guitarras e voz do álbum Feito um Cometa, da sua banda de rock chamada Barão de Itaguaripe. O disco ainda teve participação especial de Lobão e Fagner.

Destaque em várias modalidades, logo Pepê tornou-se uma figura nacional

“Foi uma alegria ter convivido com ele na época do pré lançamento. Algumas vezes vinha à minha casa com seu violão e cantava as novas músicas. Antes de sua última viagem para o Japão, disse que seria seu último campeonato, pois iria se dedicar à  música”, recorda, com carinho, o amigo Miguel.

Tavares ainda lembra outra face de Pepê, a de incentivador do esporte. “Muito determinado, ele equilibrava sua rotina de treinos com a humildade. Estava sempre dando força a todos os amigos e também me incentivou muito como instrutor de voo livre. Lembro dele falando ‘o segundo lugar é o primeiro dos últimos’”.

E ainda foi empreendedor. Para financiar sua carreira no voo e alimentar os demais pilotos, surfistas e visitantes da praia de São Conrado, o carioca criou a Barraca do Pepê. Servia sanduíches naturais e deu origem à uma franquia que existe até hoje, Pepê, atualmente comandada pelo filho João Pedro.

A Barraca do Pepê logo se tornou um point em São Conrado. Negócio ainda vive e atualmente é administrado pelos filhos do campeão

Por falar na família, Pepê também foi pai de uma menina, mais velha, Bianca, atualmente responsável por outros negócios gastronômicos da família - como o Sushi Leblon, também iniciado pelo pai. Era filho de Manuel Danton Carneiro Lopes e Vera Guise Carneiro Lopes, além de irmão de Lilia, Ronaldo e Eduardo.

Homenagens

Uma vida brilhante como a de Pepê jamais passaria despercebida. Depois do acidente fatal, o piloto emprestou seu nome à uma avenida na Barra da Tijuca e também recebeu um monumento na Praia da Barra. Além disso, o Rio de Janeiro celebra o Dia Estadual do Voo Livre em 2 de setembro, em homenagem ao nascimento do ilustre carioca.

E as homenagens não se limitaram ao território nacional. Em 1992 a Federação Internacional de Aviação criou a medalha Pepê Lopes, concedida a pilotos que tentam salvar companheiros. 

À beira do mar e sob o iluminado céu carioca, monumento em homenagem a Pepê ilustra duas de suas paixões: o surf e o voo livre (foto: Wikimapia)

Com este breve resgate histórico registramos aqui nosso reconhecimento a este eterno campeão. Que o legado e brilho deste atleta inesquecível acompanhem para sempre o voo livre nacional. Valeu, Pepê!

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