Marcelo Abbott: o campeão brasileiro que colocou o Nordeste no topo da asa delta nacional

12 de maio de 2026 - Por Lucas Axelrud

Depois de quase dois anos longe das competições, uma troca de equipamento às vésperas do evento e uma temporada marcada por reconstrução pessoal, Marcelo Abbott escreveu um capítulo histórico para o voo livre brasileiro. O piloto potiguar conquistou o Campeonato Brasileiro de Asa Delta 2026, em Baixo Guandu (ES), e levou pela primeira vez, em cinco décadas, a taça para o Nordeste.

Nesta entrevista, Marcelo fala sobre sua trajetória no esporte, a influência do sertão em sua formação como piloto, os bastidores da campanha vitoriosa e o significado emocional dessa conquista. Um relato sobre dedicação, regularidade, preparação e pertencimento.


“Superação é a palavra que nos faz perseguir evolução no esporte”

Sobre trajetória e início no voo

Para começar, se apresenta para a gente: nome completo, idade e de onde você é.
Me chamo Marcelo Abbott Galvão Serejo Gomes, tenho 39 anos e moro na Praia da Pipa (RN).

Como surgiu o voo livre na sua vida?
Conheci o voo livre através do André Filipe Vasconcellos, aluno do Robert Etzold, de Santa Catarina. Ele esteve em Natal por pouco mais de um ano e me orientou nos meus primeiros “morrinhos” nas dunas da casa de Thalis Pacheco. Depois de alguns meses, Thalis me levou para o meu primeiro voo solo, em 20 de maio de 2006, na rampa de Tacima (PB).

Você começou no parapente ou direto na asa delta?
Comecei na asa delta e logo depois aprendi a voar de parapente.

Onde aprendeu a voar e quem foram suas principais referências no esporte?
Aprendi a voar nas dunas da Praia de Santa Rita, literalmente no quintal da casa de Thalis Pacheco. Sem dúvidas, ele foi minha maior referência. Sempre foi muito competitivo e não abria mão de ir — e eu ia junto — para os campeonatos.

Outra grande referência é Betinho Schmitz. Multicampeão brasileiro, campeão mundial e dono de dezenas de recordes. Tive a chance de voar muito com ele em Brasília e também durante as gravações do programa Travessias de Asa Delta, do Canal Off, em 2016. Um verdadeiro mestre do voo livre.

Como foi sua evolução até começar a competir?
Comecei a competir logo depois dos primeiros voos, em provas regionais como Quixadá (CE), Taquaritinga do Norte (PE) e Santa Teresinha (BA). O Nordeste tem uma comunidade pequena, fanática e muito apaixonada por asa delta, que sempre movimentou bastante o calendário.


Nordeste, sertão e voos de distância

Você vem do Nordeste e tem uma forte ligação com o sertão. Como essa região moldou você como piloto?
O Nordeste é um celeiro de voos de altíssima qualidade, principalmente pela presença de ventos moderados e fortes durante quase todo o ano, o que favorece as grandes distâncias. O sertão é apaixonante e oferece um leque enorme de possibilidades para voos de XC. Voar bastante nessa região complementou muito meu desenvolvimento como piloto.

O que voar no Nordeste ensina que talvez outras regiões não ensinem?
Voar no Nordeste exige um pacote diferente de habilidades. A principal delas é conviver com vento forte em todas as etapas do voo, desde a decolagem até o pouso. Outro fator importante é a grande influência da deriva das térmicas por conta dos ventos intensos.

Qual a importância de Tacima e do Rio Grande do Norte na sua trajetória?
O Rio Grande do Norte é meu estado de origem. Onde nasci, cresci e vivi a maior parte da vida. Tenho muito orgulho de ser nordestino e potiguar.

Tacima foi onde fiz meu primeiro voo solo e meus primeiros voos de cross country. Foi também de lá que vieram minhas primeiras marcas de 100 km e 200 km. A rampa é reconhecida como um dos lugares mais intensos do mundo para voos de distância, com dezenas de recordes quebrados por parapentes e asas delta.

Importante lembrar também que o recorde sul-americano de asa delta ainda é de Tacima, voado pelo amigo e fera do voo brasileiro Glauco Pinto.


Competição, estratégia e preparação

Qual é o seu estilo de voo preferido? Cross ou competição?
Não dá para escolher. Preciso dos dois. O que mais me motiva é superar provas e metas desafiadoras, que tragam aquela sensação de recompensa. Superação é a palavra.

Quando percebeu que poderia competir em alto nível?
Durante muitos anos minha meta era terminar o ranking entre os 10 primeiros. Levou cerca de cinco temporadas para isso acontecer. A partir dali comecei a enxergar uma luz no fim do túnel para disputar uma vaga entre os seis da seleção brasileira.

O voo no sertão ajuda em campeonatos?
Ajuda muito no desenvolvimento estratégico e da individualidade como piloto. Voar cross é explorar lugares novos, relevos desconhecidos e tomar decisões sozinho. Isso agrega responsabilidade e confiança para seguir buscando a próxima térmica.

O que é mais importante para performar bem em competição?
Hoje posso afirmar que pelo menos 50% do sucesso vem da preparação física e, principalmente, mental. Depois disso vem a experiência em diferentes sítios de voo e campeonatos, inclusive com pilotos estrangeiros. Isso cria um repertório importante para lidar com situações inesperadas durante as provas.


Brasileiro 2026: bastidores da conquista histórica

Você ficou quase dois anos sem voar com frequência. Como foi voltar justamente em um Brasileiro?
2025 foi um ano muito intenso e complexo na minha vida pessoal e profissional. Pela primeira vez em 15 anos disputando todas as etapas do Brasileiro, decidi não voar. Me autodeclarei incapaz emocional e fisicamente. Precisei de um “tempo no hangar”.

Durante 2025, foquei na saúde e na preparação. Quando cheguei ao evento, meu último voo havia sido em outubro de 2024.

E a história da asa nova praticamente na semana do campeonato?
Duas semanas antes do campeonato, resolvi abrir minha asa para uma revisão rápida, mas percebi que teria muito trabalho para deixá-la em condições ideais. Naquele momento entendi que, se realmente quisesse competir, precisaria de uma asa pronta para voar.

Pouco mais de uma semana antes do evento surgiu uma oportunidade. A asa estava em São Paulo e fui ao Rio de Janeiro passar oito horas na cidade só para fechar o negócio. Comprei uma Moyes RX4 PRO, de fabricante australiano, na qual eu nunca tinha voado.

Essa asa está simplesmente mágica. Muito confortável nas térmicas e nas transições. A adaptação foi instantânea e certamente foi um fator determinante para a vitória.

Em algum momento você acreditou que poderia ser campeão?
Depois de cinco provas seguidas, durante o day off, resolvi olhar a pontuação. Eu vinha muito regular e já estava entre os três primeiros. A partir dali foquei totalmente até os últimos instantes, com o sentimento de que era possível.

Como foi voar em Baixo Guandu?
Esperava encontrar um lugar muito bom, mas o que vimos foi além da excelência. Estrutura da cidade, da rampa, condições de voo, pousos, segurança e cuidado com todos do evento. Foi simplesmente sensacional. Uma das melhores etapas dos últimos 15 anos.

Qual foi a task mais decisiva?
A última task. A largada foi por volta das 14h e a prova poderia definir tudo. Montei uma estratégia de marcar meu principal adversário, David Brito, e decidi permanecer junto dele até o pouso. Foi uma prova extremamente tática do começo ao fim.

Qual foi sua estratégia ao longo do campeonato?
Como o local era novo para quase todos os pilotos — e a asa também era nova para mim — optei por uma estratégia conservadora e de regularidade. Cheguei ao goal todos os dias e, na maioria deles, entre os cinco primeiros.

O que foi determinante para conquistar o título?
A preparação física e mental fez muita diferença. Além disso, eu estava com muita vontade de voltar a competir. O fato de o local ser novo para quase todos também trouxe um cenário mais equilibrado.

O que passou na sua cabeça quando o título foi confirmado?
Depois de um 2025 tão difícil, essa vitória foi como um presente. Uma consagração da minha recuperação emocional e da felicidade. E junto disso veio a alegria de colocar o Nordeste em um patamar que parecia inimaginável no curto prazo.


“Depois de 50 anos, o Nordeste levou a taça para casa”

Você dedicou o título ao Nordeste. Por quê?
Sou nordestino e potiguar com muito orgulho. Tacima representa minhas origens no esporte. Dedicar esse título ao Nordeste era algo natural para mim. Foi a primeira vez que levamos a taça.

Qual impacto esse título pode ter na região?
A torcida estava enorme. Acho que essa conquista animou muito a comunidade do voo livre nordestino, porque representa um marco para uma região que enfrenta muitos desafios sociais. É um incentivo importante para a continuidade da cultura do voo livre.

Esse título ajuda a mostrar a força de outras regiões do Brasil?
Sem dúvidas. O eixo Rio-São Paulo dominou o esporte durante décadas. Esse título mostra que tudo é possível com dedicação, vontade e persistência.

O que você gostaria que os pilotos mais novos do Nordeste enxergassem na sua trajetória?
São 20 anos de dedicação à asa delta. A jornada é longa, mas fantástica. Não tenham pressa. O voo livre é um esporte de longo prazo.

Que mensagem deixa para quem sonha competir em alto nível?
Busquem formação com profissionais experientes e sigam todos os ritos formais e orientações da CBVL, federações e clubes. Voar com responsabilidade é obrigação de todos. Participem de eventos e competições desde cedo. Foco e fé dão conta do resto.


Encerramento

Quem foram as pessoas mais importantes nessa caminhada?
Minha família, que sempre me apoiou. Thalis Pacheco, meu grande incentivador e parceiro de voo. Alexandre Marchesini e Ricardinho Resgate. Todos foram fundamentais nessa caminhada.

Algum agradecimento especial?
Gostaria de agradecer especialmente aos meus pais, Sonia Abbott e Alberto Serejo, e à minha esposa, Lua Spallione, que durante todos esses anos nunca questionaram minha paixão por voar.

E agora? O que muda depois do título?
Continuo na luta por uma vaga na equipe brasileira. Será difícil porque fiquei fora do campeonato em 2025 e estou atrás na pontuação, mas ainda existe uma possibilidade remota. Vamos tentar até o fim do Pré-Mundial em Andradas (MG), no segundo semestre.

Como você gostaria que esse Brasileiro fosse lembrado?
Como um evento de excelência, altíssimo nível técnico e condições fantásticas de voo. E, principalmente, como o campeonato em que o Nordeste conseguiu, pela primeira vez em 50 anos, levar a taça para casa.

A conquista de Marcelo Abbott reforça a força do voo livre brasileiro em todas as regiões do país e marca uma nova história para a asa delta nacional. Mais do que um título, o Brasileiro de 2026 simboliza dedicação, regularidade e pertencimento. Para o Nordeste, fica uma marca histórica. Para a comunidade do voo, uma inspiração para seguir fortalecendo o esporte, formando novos pilotos e celebrando a grandiosidade de cada competição.

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