Bexiga cheia: o perigo invisível nos voos longos
Depois de quase dois anos longe das competições, uma troca de equipamento às vésperas do evento e uma temporada marcada por reconstrução pessoal, Marcelo Abbott escreveu um capítulo histórico para o voo livre brasileiro. O piloto potiguar conquistou o Campeonato Brasileiro de Asa Delta 2026, em Baixo Guandu (ES), e levou pela primeira vez, em cinco décadas, a taça para o Nordeste.
Nesta entrevista, Marcelo fala sobre sua trajetória no esporte, a influência do sertão em sua formação como piloto, os bastidores da campanha vitoriosa e o significado emocional dessa conquista. Um relato sobre dedicação, regularidade, preparação e pertencimento.
Para começar, se apresenta para a gente: nome completo, idade e de onde você é.
Me chamo Marcelo Abbott Galvão Serejo Gomes, tenho 39 anos e moro na Praia da Pipa (RN).
Como surgiu o voo livre na sua vida?
Conheci o voo livre através do André Filipe Vasconcellos, aluno do Robert Etzold, de Santa Catarina. Ele esteve em Natal por pouco mais de um ano e me orientou nos meus primeiros “morrinhos” nas dunas da casa de Thalis Pacheco. Depois de alguns meses, Thalis me levou para o meu primeiro voo solo, em 20 de maio de 2006, na rampa de Tacima (PB).
Você começou no parapente ou direto na asa delta?
Comecei na asa delta e logo depois aprendi a voar de parapente.
Onde aprendeu a voar e quem foram suas principais referências no esporte?
Aprendi a voar nas dunas da Praia de Santa Rita, literalmente no quintal da casa de Thalis Pacheco. Sem dúvidas, ele foi minha maior referência. Sempre foi muito competitivo e não abria mão de ir — e eu ia junto — para os campeonatos.
Outra grande referência é Betinho Schmitz. Multicampeão brasileiro, campeão mundial e dono de dezenas de recordes. Tive a chance de voar muito com ele em Brasília e também durante as gravações do programa Travessias de Asa Delta, do Canal Off, em 2016. Um verdadeiro mestre do voo livre.
Como foi sua evolução até começar a competir?
Comecei a competir logo depois dos primeiros voos, em provas regionais como Quixadá (CE), Taquaritinga do Norte (PE) e Santa Teresinha (BA). O Nordeste tem uma comunidade pequena, fanática e muito apaixonada por asa delta, que sempre movimentou bastante o calendário.
Você vem do Nordeste e tem uma forte ligação com o sertão. Como essa região moldou você como piloto?
O Nordeste é um celeiro de voos de altíssima qualidade, principalmente pela presença de ventos moderados e fortes durante quase todo o ano, o que favorece as grandes distâncias. O sertão é apaixonante e oferece um leque enorme de possibilidades para voos de XC. Voar bastante nessa região complementou muito meu desenvolvimento como piloto.
O que voar no Nordeste ensina que talvez outras regiões não ensinem?
Voar no Nordeste exige um pacote diferente de habilidades. A principal delas é conviver com vento forte em todas as etapas do voo, desde a decolagem até o pouso. Outro fator importante é a grande influência da deriva das térmicas por conta dos ventos intensos.
Qual a importância de Tacima e do Rio Grande do Norte na sua trajetória?
O Rio Grande do Norte é meu estado de origem. Onde nasci, cresci e vivi a maior parte da vida. Tenho muito orgulho de ser nordestino e potiguar.
Tacima foi onde fiz meu primeiro voo solo e meus primeiros voos de cross country. Foi também de lá que vieram minhas primeiras marcas de 100 km e 200 km. A rampa é reconhecida como um dos lugares mais intensos do mundo para voos de distância, com dezenas de recordes quebrados por parapentes e asas delta.
Importante lembrar também que o recorde sul-americano de asa delta ainda é de Tacima, voado pelo amigo e fera do voo brasileiro Glauco Pinto.

Qual é o seu estilo de voo preferido? Cross ou competição?
Não dá para escolher. Preciso dos dois. O que mais me motiva é superar provas e metas desafiadoras, que tragam aquela sensação de recompensa. Superação é a palavra.
Quando percebeu que poderia competir em alto nível?
Durante muitos anos minha meta era terminar o ranking entre os 10 primeiros. Levou cerca de cinco temporadas para isso acontecer. A partir dali comecei a enxergar uma luz no fim do túnel para disputar uma vaga entre os seis da seleção brasileira.
O voo no sertão ajuda em campeonatos?
Ajuda muito no desenvolvimento estratégico e da individualidade como piloto. Voar cross é explorar lugares novos, relevos desconhecidos e tomar decisões sozinho. Isso agrega responsabilidade e confiança para seguir buscando a próxima térmica.
O que é mais importante para performar bem em competição?
Hoje posso afirmar que pelo menos 50% do sucesso vem da preparação física e, principalmente, mental. Depois disso vem a experiência em diferentes sítios de voo e campeonatos, inclusive com pilotos estrangeiros. Isso cria um repertório importante para lidar com situações inesperadas durante as provas.

Você ficou quase dois anos sem voar com frequência. Como foi voltar justamente em um Brasileiro?
2025 foi um ano muito intenso e complexo na minha vida pessoal e profissional. Pela primeira vez em 15 anos disputando todas as etapas do Brasileiro, decidi não voar. Me autodeclarei incapaz emocional e fisicamente. Precisei de um “tempo no hangar”.
Durante 2025, foquei na saúde e na preparação. Quando cheguei ao evento, meu último voo havia sido em outubro de 2024.
E a história da asa nova praticamente na semana do campeonato?
Duas semanas antes do campeonato, resolvi abrir minha asa para uma revisão rápida, mas percebi que teria muito trabalho para deixá-la em condições ideais. Naquele momento entendi que, se realmente quisesse competir, precisaria de uma asa pronta para voar.
Pouco mais de uma semana antes do evento surgiu uma oportunidade. A asa estava em São Paulo e fui ao Rio de Janeiro passar oito horas na cidade só para fechar o negócio. Comprei uma Moyes RX4 PRO, de fabricante australiano, na qual eu nunca tinha voado.
Essa asa está simplesmente mágica. Muito confortável nas térmicas e nas transições. A adaptação foi instantânea e certamente foi um fator determinante para a vitória.
Em algum momento você acreditou que poderia ser campeão?
Depois de cinco provas seguidas, durante o day off, resolvi olhar a pontuação. Eu vinha muito regular e já estava entre os três primeiros. A partir dali foquei totalmente até os últimos instantes, com o sentimento de que era possível.
Como foi voar em Baixo Guandu?
Esperava encontrar um lugar muito bom, mas o que vimos foi além da excelência. Estrutura da cidade, da rampa, condições de voo, pousos, segurança e cuidado com todos do evento. Foi simplesmente sensacional. Uma das melhores etapas dos últimos 15 anos.
Qual foi a task mais decisiva?
A última task. A largada foi por volta das 14h e a prova poderia definir tudo. Montei uma estratégia de marcar meu principal adversário, David Brito, e decidi permanecer junto dele até o pouso. Foi uma prova extremamente tática do começo ao fim.
Qual foi sua estratégia ao longo do campeonato?
Como o local era novo para quase todos os pilotos — e a asa também era nova para mim — optei por uma estratégia conservadora e de regularidade. Cheguei ao goal todos os dias e, na maioria deles, entre os cinco primeiros.
O que foi determinante para conquistar o título?
A preparação física e mental fez muita diferença. Além disso, eu estava com muita vontade de voltar a competir. O fato de o local ser novo para quase todos também trouxe um cenário mais equilibrado.
O que passou na sua cabeça quando o título foi confirmado?
Depois de um 2025 tão difícil, essa vitória foi como um presente. Uma consagração da minha recuperação emocional e da felicidade. E junto disso veio a alegria de colocar o Nordeste em um patamar que parecia inimaginável no curto prazo.

Você dedicou o título ao Nordeste. Por quê?
Sou nordestino e potiguar com muito orgulho. Tacima representa minhas origens no esporte. Dedicar esse título ao Nordeste era algo natural para mim. Foi a primeira vez que levamos a taça.
Qual impacto esse título pode ter na região?
A torcida estava enorme. Acho que essa conquista animou muito a comunidade do voo livre nordestino, porque representa um marco para uma região que enfrenta muitos desafios sociais. É um incentivo importante para a continuidade da cultura do voo livre.
Esse título ajuda a mostrar a força de outras regiões do Brasil?
Sem dúvidas. O eixo Rio-São Paulo dominou o esporte durante décadas. Esse título mostra que tudo é possível com dedicação, vontade e persistência.
O que você gostaria que os pilotos mais novos do Nordeste enxergassem na sua trajetória?
São 20 anos de dedicação à asa delta. A jornada é longa, mas fantástica. Não tenham pressa. O voo livre é um esporte de longo prazo.
Que mensagem deixa para quem sonha competir em alto nível?
Busquem formação com profissionais experientes e sigam todos os ritos formais e orientações da CBVL, federações e clubes. Voar com responsabilidade é obrigação de todos. Participem de eventos e competições desde cedo. Foco e fé dão conta do resto.

Quem foram as pessoas mais importantes nessa caminhada?
Minha família, que sempre me apoiou. Thalis Pacheco, meu grande incentivador e parceiro de voo. Alexandre Marchesini e Ricardinho Resgate. Todos foram fundamentais nessa caminhada.
Algum agradecimento especial?
Gostaria de agradecer especialmente aos meus pais, Sonia Abbott e Alberto Serejo, e à minha esposa, Lua Spallione, que durante todos esses anos nunca questionaram minha paixão por voar.
E agora? O que muda depois do título?
Continuo na luta por uma vaga na equipe brasileira. Será difícil porque fiquei fora do campeonato em 2025 e estou atrás na pontuação, mas ainda existe uma possibilidade remota. Vamos tentar até o fim do Pré-Mundial em Andradas (MG), no segundo semestre.
Como você gostaria que esse Brasileiro fosse lembrado?
Como um evento de excelência, altíssimo nível técnico e condições fantásticas de voo. E, principalmente, como o campeonato em que o Nordeste conseguiu, pela primeira vez em 50 anos, levar a taça para casa.
A conquista de Marcelo Abbott reforça a força do voo livre brasileiro em todas as regiões do país e marca uma nova história para a asa delta nacional. Mais do que um título, o Brasileiro de 2026 simboliza dedicação, regularidade e pertencimento. Para o Nordeste, fica uma marca histórica. Para a comunidade do voo, uma inspiração para seguir fortalecendo o esporte, formando novos pilotos e celebrando a grandiosidade de cada competição.